A Emigração

Geralmente, quando se fala de emigração de um modo geral, costuma dizer-se, no que aos portugueses se refere, que foi o seu tradicional e histórico espírito aventureiro que os levou a deixar o torrão natal e a descobrir outras terras, completamente ignoradas na grande maioria dos casos.


Fala-se dos grandiosos Descobrimentos realizados pelos Portugueses, sobretudo a partir do século XV. «Deram novos mundos ao mundo», dizem as gloriosas narrativas desses tempos. Mas a realidade e a razão fundamental da emigração teriam sido bem outras. Com efeito, este fenómeno migratório, iniciado em Portugal há muito tempo, ganhou uma dimensão especial após o fim da Segunda Guerra Mundial. O centro da questão parece ser bem mais profundo e ultrapassa o chamado espírito aventureiro. A situação política do País terá contribuído de forma decisiva para que muitas pessoas procurassem outros países, onde encontrassem mais liberdade de expressão e melhores condições de vida. O motor dessa decisão, por vezes bastante arriscada, encontrava-se também na situação económica e financeira do povo em geral, sobretudo nas zonas do interior do continente e nas ilhas.
As condições de trabalho, a falta de emprego, o baixo nível de instrução e os salários muito reduzidos — em muitos casos, verdadeiramente miseráveis — forçaram milhares de trabalhadores a procurar outros países, por vezes completamente desconhecidos. Talvez o tal espírito de aventura tenha estado presente, mas, na maioria dos casos, a necessidade falou mais alto. A desigualdade económica e social constituía uma verdadeira injustiça e continua, de certa forma, a constituí-la num mundo talvez mais monopolizado do que verdadeiramente globalizado. Por isso mesmo, na sua grande maioria, foram os mais pobres que emigraram. A intenção da maioria dos emigrantes era simples: trabalhar e fazer dinheiro. Era assim que, geralmente, pais e filhos, naquela época, olhavam para a vida. Partiam com a esperança de construir um futuro melhor, muitas vezes deixando para trás a família, a terra natal e tudo aquilo que conheciam.


Hoje, olhamos para os pobres emigrantes que chegam de países como Marrocos e que, expondo-se a enormes perigos, arriscam tudo — enfrentando a fome, a sede, a exploração e tantas outras dificuldades — na esperança de conseguirem uma vida melhor. E talvez a pergunta seja precisamente essa: será apenas a necessidade económica que os leva a partir? Ou será também a procura de liberdade, de dignidade, de melhores oportunidades e de um estilo de vida que lhes permita viver com mais esperança?
A História da emigração portuguesa talvez nos ajude a compreender melhor a realidade daqueles que hoje atravessam fronteiras em busca daquilo que nós, portugueses, também procurámos durante décadas: uma vida melhor.