Maria de Andrade e Maria da Silva Alexandre Duas Escritoras, Duas Histórias


Estimados leitores,
Este espaço dá destaque a autores de língua portuguesa, residentes em Portugal ou na diáspora. Publicamos notas biográficas e excertos das suas obras, recebidos através da Biblioteca José d’Almansor, em Montréal, ou enviados diretamente pelos próprios autores.
A rubrica Entre Nós é transmitida na Rádio Centre Ville, no programa Notas de Lá e de Cá, na última quarta-feira de cada mês. Com o propósito de chegar a um público ainda mais vasto, passamos agora a partilhar estes conteúdos também nas páginas de um jornal muito acarinhado pela nossa comunidade: A Voz de Portugal.
Na emissão de 29 de julho de 2026, para além das entrevistas às autoras convidadas, apresentámos a seguinte seleção musical:
Guitarra Portuguesa – Saudades: Instrumental Fado
Carlos do Carmo – Gaivota
Marta Raposo feat. Wallace Oliveira – Senhora do Xaile Preto
Jason Coroa – Voilà
A Música Mais Bela de Lisboa – Guitarra & Alma Portuguesa – Fado Português que Enamora
Maria de Andrade
Maria de Andrade nasceu em Lisboa e imigrou para o Canadá em 1979, fixando-se em Montréal com a sua família. Começou a escrever após a reforma e, desde então, publicou vários romances e coletâneas de contos, inicialmente em inglês:
Memories of Lili
A Patch of Black Ice (romance policial)
The Little Sect
While on a Cruise
Looking for Daisy
Cycles
Mais recentemente, estreou-se também na escrita em francês com:

  1. La femme qui ne pouvait pas parler
  2. Un jeune homme romantique
    Entre contos e romances, Maria de Andrade oferece-nos histórias que merecem ser descobertas. As suas narrativas assentam num sólido enquadramento histórico e refletem a vontade de preservar e transmitir vivências marcantes, tanto do seu país natal como do país que a acolheu.
    No romance Cycles, a autora recria ficcionalmente a trajetória de uma família que deixa Portugal no período conturbado que se seguiu à Revolução dos Cravos, procurando construir uma vida em democracia. Ao chegar ao Canadá, encontra um Québec igualmente marcado por profundas transformações políticas e pelo debate em torno da sua independência, que culminaria no referendo.
    A obra retrata igualmente o período da mobilização obrigatória para a guerra colonial em Angola, Guiné e Moçambique, bem como os acontecimentos da Revolução de 25 de Abril de 1974 e os ajustamentos políticos e sociais que se prolongaram até 1976. A protagonista conduz-nos por temas universais, como a política, a família, o casamento e o papel da mulher no mercado de trabalho. Trata-se de uma leitura que recomendo particularmente à comunidade portuguesa anglófona, sobretudo àqueles que estudaram no sistema de ensino de língua inglesa e que, não dominando a leitura em português, desejam conhecer melhor alguns dos episódios mais marcantes da história recente de Portugal e do Québec. Embora escreva um português de grande qualidade, Maria de Andrade optou por publicar a sua obra em inglês e francês. Convidámo-la a explicar essa escolha e as suas respostas, claras e muito cativantes, podem ser ouvidas na página da Rádio Centre Ville ou na página de Clementina Santos, Notas de Lá e de Cá.

Maria da Silva Alexandre
Maria da Silva Alexandre nasceu nas Caldas da Rainha, em Portugal. Aos nove anos partiu para França com a mãe, onde concluiu um curso de secretariado no Collège d’Enseignement Technique Professionnel, na Rua Chaptal, em Paris.
Aos vinte e um anos estabeleceu-se no Québec, onde trabalhou durante trinta e quatro anos na área da Saúde Pública e dos Serviços Sociais. Enquanto conciliava trabalho e estudo, frequentou a Universidade McGill, em Montréal, obtendo um Certificado em Inglês que lhe abriu caminho para estudos de tradução. Pretendia dedicar-se a essa área após a reforma, mas a paixão pela literatura acabou por conduzi-la à escrita.
O livro que escolhemos foi traduzido do francês, La petite fille du Portugal, para português com o título A Menina de Portugal.
O romance acompanha uma menina apaixonada pela natureza que deixa a brisa marítima e as dunas da sua terra natal para se juntar ao pai, em Paris. Ao lado da mãe, empreende uma longa viagem de autocarro durante a qual descobre as paisagens de Portugal, atravessa a beleza árida de Espanha e deslumbra-se com a magnificência de França. Corria o ano de 1967, quando o general Charles de Gaulle e a atriz Brigitte Bardot figuravam entre as personalidades francesas mais conhecidas do mundo. Confrontada com uma realidade totalmente nova, a escola torna-se o seu refúgio. Mãe e filha enfrentam, de mãos dadas, o abandono por parte daquele que era simultaneamente marido e pai, superando dificuldades numa cidade tão fascinante quanto intimidante. Embora apresente evidentes traços autobiográficos, A Menina de Portugal afirma-se como uma obra de ficção de grande qualidade literária. O romance prende o leitor da primeira à última página graças a uma narrativa envolvente, cuidadosamente construída, e a uma escrita de grande sensibilidade e maturidade. Cada capítulo confirma o talento da autora para criar histórias que permanecem na memória. Maria da Silva Alexandre respondeu igualmente, com grande simpatia, às nossas perguntas. As entrevistas podem ser ouvidas na emissão de Notas de Lá e de Cá, transmitida na última quarta-feira, 29 de julho.