Terminei, pelas 12 horas desta terça-feira, a entusiasmante obra APÓS A BOMBA, de Jorge Calado, professor catedrático emérito do Instituto Superior Técnico, escola excecional e para mim inesquecível, onde também tive o privilégio de ensinar.
Fui depois almoçar com o meu neto a um excelente restaurante de sushi, levando-lhe um exemplar do livro. A obra acompanha, com grande entusiasmo, tudo o que o académico foi vendo e vivendo ao longo da sua vida, sobretudo como cientista e professor, mas também através do contacto com personalidades de grande destaque da ciência e da cultura. Uma passagem que me divertiu particularmente relata uma visita aos Estados Unidos, durante a qual, sendo ambos melómanos, Calado e o anfitrião quiseram assistir a Tristão e Isolda, de Wagner. Apesar de os bilhetes estarem esgotados, Calado conseguiu obtê-los graças às suas relações no mundo da ópera, demonstrando o reconhecimento internacional de que gozava também nesse meio.
Em APÓS A BOMBA, Jorge Calado faz críticas muito corretas à política do Estado Novo e destaca o papel essencial de Francisco de Paula Leite Pinto e Herculano de Carvalho no arranque da ciência em Portugal, particularmente na química. Salienta igualmente o forte desenvolvimento científico associado à intervenção de Veiga Simão como Ministro da Educação, período em que se verificou uma crescente melhoria da qualidade, da quantidade e da diversidade da investigação universitária. Sob essa orientação formou-se mais de uma centena de doutores, cuja influência científica se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos. Foi um período decisivo para a transformação das universidades portuguesas, que deixaram progressivamente de ser grandes liceus para se afirmarem como verdadeiras universidades. A obra termina, porém, com uma reflexão sobre o retrocesso a que hoje assistimos, com as universidades a aproximarem-se novamente de novos liceus e com uma preocupante regressão social e civilizacional. A desilusão com a democracia e a incapacidade de evitar o avanço do neoliberalismo abriram espaço aos extremos. Aos meus 79 anos, temo que esta realidade dificilmente volte atrás.
O recente discurso de 5 de Outubro do Presidente António José Seguro, ao apelar à união para além das diferenças ideológicas, levanta uma questão essencial: unidos, mas em torno de quê? Por tudo isto, recomendo vivamente a leitura de APÓS A BOMBA, de Jorge Calado, uma obra que proporciona momentos verdadeiramente entusiasmantes e uma reflexão profunda sobre a ciência, a universidade e o nosso tempo.
