A DESGRAÇA DO TEMPO PRESENTE: As Vicissitudes de Hoje Provêm do Passado Europeu


Recordo aqui a infeliz iniciativa de José Pacheco Pereira de enfrentar André Ventura, e que se saldou naquela inútil gritaria, onde o primeiro, com (quase) toda a razão, ainda acabou por sair por baixo. No fundo, José Pacheco Pereira operou com aquela iniciativa uma espécie de isomorfismo daquela sua estadia, por cinco dias, no interior de uma garagem particular, a fim de perceber se o 25 de Abril era do regime ou contra este.
Como creio ter já exposto, à luz do que conheço, as descolonizações, de um modo muito geral, nunca podem ser boas, porque sucedem a um erro traumatizante, que são as colonizações. Depois, quando se procede às descolonizações, surge à superfície um conjunto de condições que, para lá de impossíveis de cumprir conjuntamente, continuam a manter, por via da memória e da sua transmissão, problemas em geral sem solução capaz.
Vem isto a propósito de a Alemanha e os Países Baixos estarem a tratar da devolução ao Gana de cerca de 2 000 objetos de valor cultural que foram saqueados durante o período colonial. Uma realidade que se mostrou universal no domínio das colonizações. No fundo, é sempre bom não esquecer o genocídio dos hereros, na atual Namíbia, por parte da Alemanha, saldado em cerca de 65 000 vítimas, mortas pelos métodos mais horrorosos que possam ser imaginados. E também de perto de 35 000 homicídios dos maquas, na Namíbia e no sul de Angola, e também pelos alemães. Genocídios de que os europeus nunca falam…
Há pouco tempo, aqueles dois países europeus fizeram o anúncio. em conferência de alto nível realizada na capital ganesa, Acra, sobre a escravatura dos africanos durante o comércio transatlântico de escravos.
Um acontecimento que tem de ser salientado, e num certo sentido apreciado, por reconhecer o crime em causa, o que já é um bom avanço. É sempre de louvar a disposição dos Estados europeus de devolver, neste caso ao Gana, de cerca de 2 000 artefactos e objetos de importância cultural que foram saqueados no tempo da correspondente colonização.
De resto, existe já um catálogo dos tesouros que serão devolvidos ao atual Presidente do Gana, John Dramani Mahama.
Simplesmente, também a Dinamarca aderiu a esta atitude de perdão por atos praticados no tempo colonial: Lars Lokke Rasmussen também pediu desculpa pelo papel daquele país na escravatura transatlântica, comprometendo-se a ajudar a preservar os castelos que construíram, como um esforço de boa-fé para evitar o esquecimento histórico, promovendo a verdade e garantindo que tal não se repetirá.
Importa aqui referir que a Organização das Nações Unidas, em março último, aprovou uma resolução histórica que classificou o comércio transatlântico de escravos como o crime mais grave contra a humanidade.
Bom, Portugal, lamentavelmente, dispõe hoje do recorde mundial neste domínio.
E numa declaração do momento, os líderes dos povos vítimas de tais práticas exigiram desculpas formais, mas também reparações aos antigos países traficantes de escravos africanos.
Infelizmente, embora o tráfico transatlântico histórico tenha terminado no Século XIX, persiste atualmente a escravatura moderna, que se manifesta no trabalho forçado, no tráfico de pessoas, no casamento forçado, na exploração infantil e na escravatura imposta pelo Estado. E tudo isto sem que os Estados ditos de Direito, onde estão presentes as tão apregoadas democracias, pouco façam para pôr um fim prático nestes horrores. Atenção, senhores políticos de hoje: a memória mantém-se sempre, e ao longo de muitas gerações…