“Quando o Mar Galgou a Terra e Algumas Considerações”, apresentado no Coliseu Micaelense, sob a encenação de Eleonora Marino Duarte, recupera o universo dramatúrgico de Armando Côrtes-Rodrigues, através de uma leitura que aproxima a tradição teatral açoriana de uma sensibilidade contemporânea.
Poeta, dramaturgo e estudioso da cultura popular açoriana, Côrtes-Rodrigues dedicou grande parte da sua obra à observação das pessoas, dos costumes, das tradições e das tensões da sociedade insular. Em “Quando o Mar Galgou a Terra”, essa atenção ao universo açoriano encontra uma expressão particularmente forte, ou seja, no mar que não é apenas cenário, mas uma presença que condiciona destinos, relações familiares e expectativas.
É precisamente essa dimensão que a adaptação de Eleonora Marino Duarte procura recuperar. Ao transportar para a cena personagens como Tio João do Brás, Miguel, Aninhas e o Construtor de Violas, a encenação não se limita a reconstruir um passado açoriano. Procura perceber o que ainda existe dessas personagens no presente, valorizando a dimensão humana do texto e a sua profunda ligação à identidade cultural micaelense.
Há, na encenação, uma preocupação evidente em preservar a matriz açoriana da obra sem transformar o passado numa simples reconstrução folclórica. Côrtes-Rodrigues escreveu a partir de uma realidade concreta, mas os conflitos que colocou em cena continuam reconhecíveis: a família, a autoridade, o desejo de liberdade, o medo da mudança e a dificuldade de romper com aquilo que nos foi transmitido.
É neste contexto que a presença de Bruno Correia assume particular importância. Conhecido sobretudo pelo seu reconhecido percurso no audiovisual, o intérprete enfrenta aqui um desafio diferente. No teatro não existe a proteção do enquadramento, da montagem ou do primeiro plano. O ator está diretamente exposto perante o público e precisa de construir a personagem através do corpo, da voz, do ritmo e da presença.
Ao assumir Tio João do Brás e ao mesmo tempo de Miguel, Bruno Correia revela essa capacidade. As duas personagens exigem diferentes registos de energia e de presença. Se Tio João do Brás carrega o peso da idade, da experiência e de uma relação profundamente enraizada com a terra, Miguel representa uma força mais ligada à mudança e à abertura de horizontes.
A transição entre essas duas dimensões constitui um dos aspetos mais interessantes da sua prestação. Mais do que transportar para o palco a experiência adquirida no audiovisual, Bruno Correia constrói uma presença teatral própria. A voz ganha espessura, o gesto adquire significado e os silêncios passam a ter uma função dramatúrgica. Foi uma interpretação que cativou a plateia e deixou a sensação de que este poderá ser apenas o início de um novo percurso.
Filipa Gomes, como Aninhas, assume uma personagem central na dimensão emocional da peça. Aninhas encontra-se entre dois mundos, pois pertence à realidade familiar e social que conhece, mas é também atravessada pelo desejo de mudança. A interpretação confere-lhe sensibilidade sem retirar à personagem a sua dimensão de conflito.
Wellington Nascimento, no papel do Construtor de Violas, introduz outra tonalidade no espetáculo. O som da sua viola integra-se na encenação e estabelece uma ligação particularmente feliz entre a palavra de Côrtes-Rodrigues e a dimensão musical da cultura açoriana. A música surge, assim, não como mero acompanhamento, mas como parte da atmosfera e da identidade da representação.
A adaptação de Eleonora Marino Duarte permite, assim, que as personagens de Côrtes-Rodrigues voltem a encontrar espectadores e que uma obra profundamente enraizada na cultura micaelense possa ser observada não apenas como documento histórico, mas como matéria teatral viva.
E esse talvez seja o verdadeiro teste à permanência de um autor: perceber se, décadas depois, as suas personagens ainda conseguem falar connosco e no Coliseu Micaelense, falaram.
E, no centro dessa experiência, ficou também Bruno Correia. A sua passagem do audiovisual para o palco revelou um intérprete que merece novas oportunidades no teatro. Depois do desempenho em Tio João do Brás e Miguel, fica a expectativa de saber que outras personagens ele poderá descobrir quando voltar a trocar a câmara pela presença direta diante do público.
Porque o teatro tem essa capacidade rara: recuperar vozes que julgávamos distantes e permitir que, por algumas horas, elas voltem a falar. E o mar, mais uma vez, galgou a terra, mas desta vez para chegar ao palco. Aqui fica o meu aplauso.
Quando o mar galgou o palco
