É carnaval


As folias carnavalescas encerram-se hoje e constituem uma das expressões vivas da cultura popular da Região, revelando a diversidade identitária de cada ilha e a capacidade das comunidades em reinventar tradições seculares. O carnaval, enquanto tempo de inversão social, sátira e festa coletiva, assume um papel particular, por ser uma pausa ritual nas agruras do dia a dia, um momento de liberdade onde o riso, a música e o disfarce ganham protagonismo.
Na ilha Terceira, o carnaval atinge um brilho singular e uma projeção cada vez maior, tanto a nível regional como nacional. As célebres danças de Carnaval são a expressão mais típica desta vivência festiva. Estas danças combinam teatro popular, música, coreografia e sátira social, sendo apresentadas por grupos organizados que percorrem freguesias e salões. Os textos, transmitidos oralmente e adaptados ao contexto contemporâneo, refletem temas do quotidiano, críticas sociais e humor mordaz, brincando com a rivalidade com S. Miguel e mantendo viva uma tradição que articula o passado com o presente. O Carnaval terceirense é, assim, um fenómeno cultural que envolve um forte sentido comunitário e uma notável capacidade criativa.
Na ilha Graciosa, o Carnaval assume um caráter igualmente agregador, mobilizando praticamente toda a população. Os bailes carnavalescos realizados nas associações desportivas e recreativas constituem o centro da festa, funcionando como espaços de convívio intergeracional. Aqui, mais do que o espetáculo organizado, destaca-se a participação coletiva e o ambiente de proximidade, onde a música, os disfarces e a dança reforçam os laços sociais numa ilha marcada pela forte coesão comunitária.
Em São Miguel, as tradições carnavalescas têm sofrido transformações significativas. As antigas danças de Entrudo, em que os homens se transvestiam de mulheres e percorriam as ruas em ambiente de provocação e riso, estão progressivamente a desaparecer. Estas manifestações populares, marcadas pela inversão de papéis de género e pela ocupação do espaço público, davam ao Carnaval micaelense um caráter irreverente e profundamente popular. Hoje, restam sobretudo os bailes mais formais, como os do Coliseu Micaelense e do Clube Micaelense, associados historicamente à elite local. Paralelamente, mantêm-se os populares bailes verde-amarelo da Povoação, bem como os de Vila Franca do Campo e da Associação Agrícola de São Miguel, que continuam a atrair públicos diversos.
Ainda em Ponta Delgada, a batalha de água na avenida marginal, reminiscência da antiga batalha de flores, permanece como uma das expressões mais espontâneas do Carnaval contemporâneo, mobilizando sobretudo os jovens. Esta prática, simples mas vibrante, transforma o espaço urbano num palco de alegria coletiva, reforçando o caráter lúdico e informal da festa.
O Carnaval mais característico e identitário de São Miguel encontra-se, contudo, em Rabo de Peixe. Os mascarados, envergando dezenas de chocalhos de vacas que produzem um ruído intenso e inconfundível, percorrem as ruas num ambiente de grande excitação. Esta manifestação, simultaneamente festiva e transgressora, afirma uma identidade popular forte, marcada pela presença sonora, pelo anonimato da máscara e pela ocupação simbólica do espaço comunitário. No Pico da Pedra, destaca-se o tradicional cortejo alegórico, que envolve carros decorados, sátira social e participação coletiva, reforçando o espírito carnavalesco da freguesia.
Assim, o Carnaval nos Açores, nas suas múltiplas formas e expressões, continua a ser um tempo de suspensão das rotinas e das dificuldades do quotidiano.
Entre danças, bailes, mascarados, malassadas e batalhas de água, a folia carnavalesca afirma-se como um património cultural vivo, onde tradição e mudança coexistem.
E, por entre o riso e o excesso permitido, faz-se a necessária pausa às agruras do dia a dia.
Viva o Carnaval.

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