Era uma vez


Era uma vez um país à beira-mar plantado, onde a mediocridade é exaltada e a competência é menosprezada ou confundida com jactância; onde se discute a classificação de uma curva, esquerda ou direita, mas não se sabe o rumo a seguir; onde todos opinam sem razão, desconhecendo o mínimo resquício de compromisso; onde a realidade, seja manifestando-se através de uma crise económica, financeira, meteorológica ou outra forma, com origem interna ou externa, nada mais faz do que criar gritaria e confundir os espíritos ao invés de situar os seus cidadãos para a solução devida ou para a preparação necessária; onde o despesismo em coisas inúteis faz parte dos fundamentos culturais, a par com Fátima, futebol e o fado; um país onde o oportunismo é de tal forma enraizado que agir fora dele é considerado uma anormalidade; onde a anormalidade passa a ser normal, pelo laxismo preponderante; onde a vaidade é reconhecidamente uma imperatriz sobre todos as almas; onde o facilitismo cria situações graves mas rapidamente resolvidas pelo laxismo; onde a inércia é o melhor caminho, ou quando impossível por força das circunstâncias, substituída pelo compadrio…
E poderia continuar por muitas e muitas linhas. Será cruel face ao incidente atmosférico que se abateu sobre Portugal?
Talvez.
Não deixa de ser doloroso continuar a assistir ao choradinho habitual depois de exposta a incompetência do poder local, que gritando por mais e mais autonomia, não é capaz de lidar com a autonomia que tem, exceto para o desperdício incompetente.
Onde estão os planos de emergência?
Onde está a coordenação da proteção civil?
Onde está uma rede de comunicações eficaz, eficiente e “à prova de bala”?
Só retórica.
E heroísmo bairrista. Daquele que serve para untar a vaidade de um povo que vive à sombra de sacrifícios pontuais quando nada há a fazer. Mas que não é capaz de se mobilizar para o devido. Um país que agora não fugirá à sua habitual rotina: linhas de crédito a fundo perdido para tudo e todos, que farão as paragonas dos jornais mas que cairão no esquecimento, sem escrutínio da sua eficácia.
Paga, contribuinte, e não reclames! Mas os deuses protegem Portugal. Resta saber até quando, pois face a uma catástrofe como o terramoto de 1755 – oxalá nunca aconteça – serviria apenas para derrubar uma sociedade que teima em não se preparar, que teima em não enfrentar a realidade a as exigências subsequentes, acima de tudo, teima em não progredir.

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