1.Recentemente participei na reunião anual de um grupo de pessoas com interesses comuns. À parte os debates e discordâncias, que considero salutares e enriquecedores quando orientados pelo bom senso e inteligência, verifiquei com espanto o desnível a que a sociedade se sujeita.
Nesta assembleia, com pessoas de várias origens, incluindo quebecois de souche, foi com tristeza que assisti os membros entregarem-se ao oportunismo calculista e desavergonhado, tudo a troco de migalhas. Revendo o filme Gladiador (Gladiator) de 2000, onde revi a cena replicando a entrega de pães à multidão cega e sedenta de espetáculo sanguinário, lembrando a máxima que o povo quer “pão e circo”, não pude deixar de associar essa ideia ao que tinha assistido e sentir o odor pútrido da decadência da sociedade dita ocidental naquela assembleia em que participei. Apesar dos esforços conjugados meus e de mais dois ou três participantes para expor a realidade nua e crua, os poucos mais que se nos juntavam eram no sentido de se aproveitarem eles mesmos fazendo uso de ainda mais oportunismo.
- Num recente artigo de Timothy David Snyder, publicado na internet no Substack, intitulado “The Inhuman Assault on Christmas” – O Assalto Inumano ao Natal, descreve este a experiência que teve enquanto estava num café tentando trabalhar.
Notou ele que a canção que tocava em ambiente, um clássico americano de Natal apesar do tema ser o romance durante época invernal, tinha a sua letra alterada, eliminando algumas partes de tal forma que descaracterizava completamente a canção perdendo-se o sentimento que a mesma pretendia transmitir originalmente. Reflete ele sobre o crescendo de ataque sobre as tradições, as inofensivas que refletem o melhor que a atual sociedade produziu até agora, ao sabor de novas exigências deterministas e condenadores de tudo e todos.
Até o mais simples sentimento de amor romântico entre um homem e uma mulher aparece como ofensivo de tal forma que ele se interroga se a nova letra não terá sido gerada pela frieza de um algoritmo de inteligência artificial ordenado para reescrever a canção com mais inclusão. A própria palavra “incluir” passou a ser algo fraturante que excita uns a favor e outros contra de forma apaixonadamente cega. O sectarismo, fruto do orgulho exacerbado e de uma educação deficiente, instala-se cada vez mais com modernos gurus com poder financeiro e económico que confundem sucesso mundano com elevação de espírito. Mas há também outros gurus. Aqueles que dominam o mundo das ideias fazendo uso das novas tecnologias de informação, e também das suas personalidades narcisistas constantemente carentes de exposição e atenção. - A proliferação de anulações de festividades de Natal em vários países europeus em particular, sobre a desculpa de condições de segurança, revela um problema mais profundo na sociedade europeia que não se limita só ao Natal.
As múltiplas ações de defesa de uns em detrimento de outros, sejam eles palestinianos com israelitas; eles contra elas; religião com secularidade; ou mesmo entre ideologias; estas manifestações de irreflexão com tentativas pueris de justificação que são aceites por parte significativa da sociedade são fruto de uma deficiente construção do individuo enquanto ser humano. Infelizmente ninguém repara na superficialidade das questões apontadas.
E ninguém se assombra com o constante ultrapassar de balizas éticas e morais para imporem os seus fins. Estou em crer que esta época e os anos seguintes serão um caso de estudo para a sociedade dos séculos futuros, pelo desequilíbrio entre desenvolvimento tecnológico e desenvolvimento humano.
Em época natalícia, que nos reconduz a verdadeiros valores fundamentais humanos, que não têm dono ou mandatário designado, não deixa de nos invadir uma nostalgia de algo que ainda não existe.
