As recentes eleições locais no reino Unido ditaram o retorno de Nigel Farage e do seu partido Reform UK ao palco político.
Depois do Brexit, escapou-se de forma inteligente pois à sua agenda de destruição não havia, não há e nem haverá construção subsequente.
Como todos os populistas, a motivação da sua ação é o pensamento mágico consistindo em acreditar que destruindo aquilo que julgamos ser a causa dos males que identificamos, automaticamente – como por magia – retornaremos a um ponto passado que idealizamos, que satisfaz o nosso sentimento de orgulho individual e coletivo.
Percebe-se o porquê.
Circulando por algumas zonas de Portugal verificamos a descaracterização de algumas zonas onde até os comércios tradicionais foram substituídos por outros servindo uma comunidade específica que imigrando em grandes números em pouco espaço de tempo, naturalmente aglutinou-se em verdadeiros ghettos.
Em conversa com outras pessoas que visitaram algumas capitais e cidades principais europeias, incluindo no Reino Unido, o mesmo fenómeno se verifica.
Este movimento apreciado por uma nova esquerda que perdeu a sua moderação e encontrou neste ato uma forma de luta adequada ao seu propósito de transformação da sociedade pela força, baseada na sua ideologia de superioridade moral sub-reptícia, pretende assim desfigurar as sociedades de uma forma que não conseguiu face aos progressos económicos.
Os moderados foram apanhados em contrapé: se se manifestam contra, traem o seu próprio rótulo de moderados; se defendem a imigração – entre outros ativismos – são rotulados de extremistas de esquerda.
E como ficam as populações?
Entre dois males maiores, dada a inércia natural do ser humano à mudança, encostam-se àqueles que lhes oferecem uma solução que lhes devolva o mundo perdido que conheceram. Instala-se assim a divisão entre dois destruidores: aqueles revoltados com a estrutura existente tradicional e aqueles que a pretendem regredir ao passado. Tudo pela violenta imposição pois as partes deixaram de se ouvir e deixaram de ouvir o cidadão.
O brexit foi um puro erro de cálculo do então primeiro ministro britânico David Cameron que tentando salvar o seu partido, perdeu o país. Esse erro custou e continuará a custar ao Reino Unido, mas é um erro que o cidadão inglês está disposto a pagar face à descaracterização que vê à sua volta, assim como à injustiça que sente face a benesses mal distribuídas em função de oportunismos políticos do momento.
A sociedade não compreende como é possível que movimentos das esquerdas defendem com tanta garra a situação na Palestina, mas esquecem-se dos problemas em casa, inclusive hostilizam mesmo os de sua “casa”.
Esta incompreensão, que se traduz também em revolta, leva o eleitorado a cair nos populistas de direita, que são a imagem exata daqueles mas de teor nacionalista.
Duvido que o brexit se concretizasse não fosse a amálgama de erros acumulados e persistentes. A título pessoal, onde passei parte da minha meninice e cresci até jovem adulto, vejo a descaracterização que se instalou.
Onde havia lojas e restauração onde chegámos a cruzar com personagens da sociedade de então, desde políticos a desportistas, referências que eram para encontros da nossa adolescência, há agora amostras de cafés e restaurantes de refeições estrangeiras, que sendo bem vindas para variedade, são em número visivelmente exagerado levantando questões de sobrevivência face à falta de clientela e rotatividade de pessoas lá presentes de dia para dia.
Ser servido em português é difícil, quando não impossível, por experiência própria.
Aqui não se trata de ser contra a imigração.
Como o sal na comida, que se quer em equilíbrio para enaltecer e enriquecer sabores, a imigração deve observar este princípio.
Sendo eu mesmo imigrante, neto e filho de cidadãos que também o foram, respeito as qualidades necessárias para essa aventura, entre as quais realço a resiliência e sacrifício. Mas também devo respeito à sociedade de acolhimento.
Como em todas as parcerias, a imposição forçada de uma parte sobre a outra despoletará eventualmente uma reação desta. Este princípio aplica-se a tudo.
A falta de escuta para determinados problemas que afligem os cidadãos leva-os a atirarem-se ao seio de movimentos populistas. Quando governos aplicam medidas, ações e empreendem qualquer projeto que não é compreendido pelo cidadão, este sente-se ostracizado. N
aturalmente não podemos, nem devemos atender a todas as necessidades e vontades.
Mas ao menos devemos deixar a impressão que os escutámos, e que face a determinada ponderação, com determinado objetivo, decidiu-se desta ou daquela forma.
Mesmo quando não é possível atender aos cidadãos.
Mesmo que isso custe votos. Infelizmente criou-se esta imagem que a democracia é suposta de dar tudo a todos em todo o tempo. Mas não é possível. E podemos aceitar isso de duas formas: pelo compromisso; ou pela destruição, neste caso com prejuízo de todos.
O espectro da divisão: ou será destruição?
