O mundo ainda precisa de homens de Estado
O primeiro-ministro do Canadá tem-se distinguido por fazer frente a Trump, como recentemente se viu no encontro de Davos. Quem é Mark Carney? Carney não é um político tradicional — e talvez seja exatamente por isso que está a surpreender tanta gente. Num momento em que os Liberais canadianos atravessavam uma fase frágil, desgastados pelo poder e pressionados por divisões internas e cansaço do eleitorado, Carney surge como uma figura improvável, mas poderosa, capaz de recentrar o debate e, mais do que isso, de unir o país. Mostrando que não nasceu no meio da política, construiu a sua autoridade longe dos palcos partidários. Foi governador do Banco do Canadá durante a crise financeira de 2008 e, mais tarde, do Banco de Inglaterra em pleno turbilhão do Brexit — um feito raro para um estrangeiro. Esse percurso deu-lhe algo que falta a muitos líderes atuais: credibilidade técnica, sangue-frio em tempos de crise e uma visão global que não se deixa intimidar por populismos ruidosos.
Foi isso que ficou evidente em Davos. Frente a Donald Trump — símbolo máximo da política da intimidação, do simplismo e do confronto — Carney não levantou a voz, não teatralizou, não entrou no jogo. Fez algo mais eficaz: respondeu com substância, dados, visão estratégica e uma defesa clara das instituições democráticas e da cooperação internacional. Enquanto Trump provoca, Carney estrutura. Enquanto Trump divide, Carney agrega. E essa diferença pesa. Carney, olhos nos olhos com o mundo, faz um discurso que fica na história e será alvo de estudo em muitas salas de formação.
O que mais surpreende é o efeito interno. Num período delicado para os Liberais, em que o partido parece à procura de rumo e de fôlego, Carney aparece como uma figura de gravidade nacional, alguém que fala para além das trincheiras partidárias. Não é o homem das frases fáceis, mas é o homem que transmite segurança. E, em tempos incertos, isso vale ouro. Carney não promete milagres nem encena carisma vazio. Oferece liderança séria, competente e respeitada internacionalmente. Ao enfrentar Trump com firmeza sem estridência, mostra que o Canadá não precisa gritar para ser ouvido. Carney não salva os Liberais com truques, mas reforça que é possível liderar com cabeça fria, responsabilidade coletiva e coragem — algo surpreendente hoje. O governo do Canadá tem apoio interno visível no problema em curso com o vizinho do Sul. É bem claro que o povo não aceita soluções como a anexação sugerida por Trump. Esse apoio não nasce apenas do aparelho do Estado ou das elites políticas, mas de um sentimento amplo de afirmação nacional, algo pouco frequente no Canadá. A ideia de “anexação”, mesmo lançada em tom provocatório ou ambíguo, foi recebida como um ataque direto à soberania. Da esquerda à direita, de Vancouver ao Quebeque, a resposta foi quase unânime: o Canadá não está à venda, nem aceita tutela externa.
O apoio popular expressa-se de várias formas: sondagens indicam aumento da confiança nas instituições federais e rejeição a qualquer cedência que comprometa autonomia política, económica ou diplomática. Editorias, associações civis, líderes empresariais e académicos fecharam fileiras em defesa da soberania — algo raro num debate político habitualmente contido. Há ainda um apoio mais silencioso, mas profundo: o da identidade. O Canadá define-se muitas vezes em contraste com os Estados Unidos — menos ruidoso, mais institucional, mais multilateral. As investidas de Trump, longe de fragilizarem essa identidade, acabaram por reforçá-la, ao cristalizar a rejeição do unilateralismo, da política da força e da lógica da submissão. Importa sublinhar que não se trata de nacionalismo agressivo ou antiamericano, mas de um patriotismo defensivo e sereno. O apoio ao governo assenta na perceção de que Ottawa tem respondido com firmeza institucional e cabeça fria, evitando o confronto teatral. Em suma, Trump conseguiu algo raro na política canadiana: unir o país. Ao pressionar, consolidou resistências; ao provocar, reforçou consensos.
Não obstante, nem tudo vai bem no “reino” de Carney e dos Liberais, com problemas na política financeira e falhas nos serviços públicos. Ainda assim, a nova parceria estratégica do Canadá com a China é recebida com alívio, pragmatismo e até entusiasmo contido — não por ingenuidade, mas por percepção de autonomia e resposta racional a uma América cada vez mais imprevisível sob Trump. A irritação do ex-presidente norte-americano funcionou quase como selo de aprovação. Para muitos canadianos, o problema já não é a China em si, mas a dependência excessiva dos EUA. Décadas de integração económica geraram prosperidade, mas também vulnerabilidade. O acordo com Pequim é visto como forma de reduzir a capacidade de chantagem americana.
O entendimento com a China é menos ideológico e mais estratégico: comércio, tecnologia verde, minerais críticos e novos mercados. O discurso público é claro: depender de um único parceiro errático é erro político. A parceria insere-se numa estratégia maior, fortalecendo laços com Europa, Ásia-Pacífico e outros, reposicionando o Canadá como ponte entre mercados e modelos de governação, alinhada à identidade histórica do país. Há críticas — direitos humanos, segurança, dependência tecnológica — mas prevalece a vigilância adulta. Para os canadianos, negociar com olhos abertos, não de joelhos, é um exercício de soberania. Entre a comunidade emigrada no Canadá — e muito em particular a comunidade açoriana — o momento atual está a ser vivido com atenção, maturidade política e forte sentido de união. Não se sente pânico nem receios generalizados, mas vigilância cívica e alinhamento claro com a defesa da soberania canadiana. Há apoio às posições do governo canadiano, verbalizado em associações comunitárias, encontros informais, meios de comunicação locais e redes sociais. A comunidade açoriana, historicamente trabalhadora e profundamente ligada às instituições do país de acolhimento, vê nesta fase uma afirmação dos valores que a fizeram escolher o Canadá: estabilidade, respeito institucional e equilíbrio nas relações internacionais.
Importa sublinhar que Donald Trump não é unanimemente rejeitado no Canadá. Alguns reconhecem pontos positivos, como a defesa de empregos americanos, políticas de segurança e atenção a temas globais evitados por outros líderes. A comunidade açoriana valoriza essa visão pragmática, mas mantém alinhamento claro com Ottawa: reconhecer méritos não significa aceitar intimidações ou comprometer a independência nacional. Nas conversas dos últimos meses, há um sentimento recorrente de orgulho no tom adotado pelo Canadá e, em particular, no discurso de Carney — forte, sério, prático e carregado de significado histórico. O efeito prático é visível: maior coesão comunitária, identificação com o projeto canadiano e sensação clara de que o país respondeu unido a uma pressão externa. Carney, mais do que dividir, veio unir — não apenas no centro político, mas também nas margens, incluindo as comunidades emigrantes. Finalmente, o problema com Trump é assunto central na comunicação social canadiana, ocupando espaço diário em jornais, televisões e rádios, com cobertura firme, equilibrada e sem alarmismos. Nas comunidades emigrantes, incluindo a açoriana, o assunto também ecoa, mas com registo mais comunitário e pedagógico. Predomina a ideia de que o confronto é indesejável, porém inevitável quando estão em causa soberania e regras do comércio internacional. Proximidade obriga a diálogo, mas vizinhança não significa submissão.
Em síntese, o Canadá, liderado por Carney, mostra que é possível enfrentar pressões externas com substância, liderança séria e visão estratégica, consolidando unidade interna, reforçando a identidade nacional e reafirmando o papel do país no tabuleiro internacional sem recorrer a espetáculos ou populismos. O mundo ainda reserva espaço para homens de Estado, e a experiência canadiana e é uma lição valiosa para todos.
