Realmente Nascidos na Violência: Com Naturais Cambiantes, os Eua Foram Sempre um Mal


Achei uma enorme graça às tomadas de posição de Alexandra Leitão e José Pacheco Pereira, na noite de ontem, no seu O PRINCÍPIO DA INCERTEZA. Já mesmo à beira do fim do programa deste mais recente domingo, cada um daqueles manteve-se ainda expectante em face de serem os Estados Unidos uma real ditadura! Ficaram de ver o que se irá passar nas próximas eleições intercalares, se realmente vierem a ter lugar nos Estados que são hoje dominados pelos democratas!!
A grande verdade, mas de que se foge a sete pés, é o facto de serem os Estados Unidos, desde a sua fundação, um Estado violento. Toda a sua construção se suportou, por razões diversas, em práticas de violência. Uma violência que se projetou na perseguição aos povos indígenas locais, nas guerras contra ingleses, espanhóis e franceses, também contra os mexicanos, até mesmo contra as bases que se estavam a desenvolver em ordem ao nascimento do Canadá.
Claro está que, durante todo este percurso, os políticos norte-americanos também realizaram ações muito proveitosas em favor de povos diversos do mundo. Todavia, há uma linha de fundo que sempre esteve presente: a violência como modo de organizar a vida interna da sociedade norte-americana, como por igual, sempre que necessário para os interesses americanos, no relacionamento dos Estados Unidos nas relações mantidas com os restantes Estados do mundo.
Não constitui, pois, um antiamericanismo primário a crítica, muito generalizada e antiga, de que a generalidade da política norte-americana se mantém constante no tempo, a despeito das naturais diferenças entre os que exercem o poder político supremo nos Estados Unidos. E por tudo isto há muito saliento, a quantos comigo contactam, que os Estados Unidos foram sempre assim, tal como hoje se pode assistir, ao dia-a-dia, sob as caraterísticas muito singulares de Donald Trump.
Em primeiro lugar, quem chega ao poder não muda o que possa ter sido feito, mesmo que ilegalmente, por quem acabou de sair de lá. Foi deste tipo, por exemplo, o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, ao tempo do primeiro mandato de Trump, ao mesmo tempo que este presidente de pronto transferiu a embaixada dos Estados Unidos para aquela cidade. Os democratas, de pronto, protestaram, mas a verdade é que Biden e Kammala chegaram ao poder, mas já não inverteram as anteriores decisões. Foi sempre assim a História dos Estados Unidos: bem ou mal, o que foi feito é para manter.
Em segundo lugar, e como pude já expor, os Estados Unidos nunca foram um Estado de Direito. Talvez tenham mantido um certo arremedo de democracia, mas mesmo neste domínio há que ter em conta que a prática democrática, de um modo imensamente geral, só é acessível a americanos com grande riqueza.
Há perto de um ano, o Professor Viriato Soromenho Marques, no programa JANELA GLOBAL, expôs uma história, verídica, passada com certo presidente, creio que pelo meio do Século XIX. Perante uma decisão que se preparava para tomar, o seu chefe de gabinete mostrou-lhe um acórdão do Supremo Tribunal Federal, a cuja luz existia a obrigação de entregar certas terras da Geórgia, bem como determinado montante, a uma tribo índia que recorrera àquele órgão judicial.
O presidente do tempo, então, leu o tal acórdão, dizendo, depois, para o seu chefe de gabinete: está bem, mas isto só vale dentro da sala onde estão dos juízes. E assim prosseguiu o que estava em causa, mas sem dar cumprimento à decisão do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, e de um modo simples: os Estados Unidos também neste caso mostraram não ser um Estado de Direito. E, de facto, nunca o foram.
Em terceiro lugar, a ausência de Estado de Direito tem uma causa, que até se compreende se se perceberem os sonhos de sempre dos fundadores dos Estados Unidos. Eles receberam um sentido de devir histórico a levar a todas as partes do mundo. Portanto, não pode depois, perante um sentido histórico deste tipo, surgir um sistema judicial a pôr em causa os passos, legais ou ilegais, dados para que se consubstancie o tal devir histórico, generalizadamente aceite desde o surgimento dos Estados Unidos.
E, em quarto lugar, o que está a passar-se sob o comando de Donald Trump está longíssimo de suscitar a reação contrária por parte, por exemplo, dos democratas. Invariavelmente, vêm estando calados perante o que se vai vendo, dentro e fora dos Estados Unidos. Mas vejamos uma situação potencial.
Imagine o leitor que, num dia destes, os Estados Unidos, tal como fizeram com a Venezuela, se determinam a desembarcar uma ampla força militar na Gronelândia. Criar-se-ia um qualquer confronto diplomático com a Dinamarca, mas os europeus mostrar-se-iam bem quietinhos. Se depois surgisse um novo presidente, mas democrata, nem por isso os Estados Unidos reporiam a legalidade internacional antes violada. E a razão, de facto, é sempre a mesma: os Estados Unidos, desde o seu início, vêm sendo um Estado em expansão territorial.
Por fim, Donald Trump já conseguiu que o líder do Cazaquistão visitasse, oficialmente, a Casa Branca, deste modo abrindo um pouco a porta para continuar o cerco à Federação Russa. E o que realmente pretende, em última análise – não pode dizê-lo…–, é instalar na Gronelândia um sistema de mísseis antimísseis contra o que possa vir a fazer, através do Ártico, a Federação Russa. Ou seja, mais uma peça no cerco à Federação Russa que se vem operando, sempre sem recuo, desde que a União Soviética teve o seu fim. Portanto, e como usa dizer-se, temos pena…

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