Rebeldes & Rebeldias de Jorge Campos


Estimados leitores,
Este espaço do vosso jornal tem por missão celebrar e divulgar autores de língua portuguesa, quer sejam naturais de Portugal, quer integrem a vasta e vibrante diáspora lusófona. Procuramos apresentar cada autor com o respeito que a sua obra merece, partilhando breves notas biográficas e excertos significativos dos seus escritos, que nos chegam, na sua maioria, através da Biblioteca José d’Amansor, em Montréal.


Contamos igualmente com a valiosa parceria da Biblioteca de Palmela, que tem partilhado connosco autores da região e que já reservou um espaço dedicado à leitura das obras dos nossos luso-canadianos — um gesto que muito nos honra e que resulta do empenho contínuo da nossa rubrica Entre-Nós.
Também o Núcleo de Leitura da Casa do Alentejo, em Toronto, tem sido uma inspiração para a Entre-Nós, funcionando como uma fonte constante de sugestões e de diálogo literário.
A rubrica é apresentada na Rádio Centre-Ville, todas as últimas quartas-feiras do mês, na emissão Notas de lá e de cá. Contudo, sabendo que nem sempre é possível acompanhar a rádio, apesar das várias opções disponíveis, decidi trazer este mesmo trabalho para as páginas de A Voz de Portugal, um jornal muito acarinhado pela nossa comunidade. Assim, ofereço-vos a oportunidade de conhecer, com maior tranquilidade, a produção literária de autores de língua portuguesa — daqui, de fora e de todos os lugares onde a nossa língua encontra voz.
Jorge Campos nasceu em Lisboa e está radicado em Montreal desde 1977. Este autor combina a paixão pela literatura com um sólido conhecimento científico. Com vários artigos de fundo publicados em revistas técnicas e científicas de língua inglesa, viria a ocupar, de 1990 a 1993, a posição de Diretor de Produção da revista « Institute of Electrical and Electronics Engineers — Advancing Technologies for Humanity ». O seu livro de ficção científica, Praia dos Deuses, foi publicado em Portugal, em 1995, pela Editora AVega. Está incluído no repertório dos escritores portugueses de ficção científica.
Em 2002, Jorge Campos abandonaria completamente a ficção científica para se dedicar exclusivamente a escrever romance histórico, centrado na época dos Descobrimentos portugueses. Um dos seus contos, nesta nova temática, « Porquê », receberia, em 2004, o prémio da melhor história curta no concurso literário Proverbo, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Este seu novo interesse daria também origem ao romance « Mina », uma obra que ilustra as peripécias dos navegadores lusos do século XV na exploração da costa africana.
E porque falamos dos seus contos — tão conhecidos e apreciados — porque não trazer-vos, desde já, um dos excertos que selecionei para hoje? Trata-se de um texto inserido no livro Rebeldes e Rebeldias, em formato digital, intitulado “Portão de Lado Nenhum para Sítio Algum”, cujo excerto passo a transcrever:
“Escondido entre altos prédios de apartamentos, existe em Carcavelos um pequeno recanto do paraíso. É um lugar com um lago de águas calmas e brilhantes, com árvores de copas luxuriantes e acolhedoras e com extensos relvados verdejantes, onde humanos convivem harmoniosamente com uma miríade de espécies de peixes, tartarugas, patos, galináceos, pombos, pavões e pássaros coloridos. Não falta mesmo uma cascata natural, nem o som de risadas de gente feliz.
No jardim da Quinta da Alagoa, o engenho do homem e a generosidade da natureza parecem, de facto, ter caprichado numa criação única. Foi, ao longo dos séculos, albergue de monges e retiro de férias da fidalguia, como o demonstram um conjunto de casarões em ruínas na periferia norte. A tranquilidade e harmonia que se desprendem de tão sublime cenário elevam-nos o espírito, predispõem-nos a ultrapassar as desilusões do dia a dia e tornam-nos mais atentos a detalhes subtis no mundo que nos rodeia. Penso que terá sido isso que, a certa altura, despontou o meu interesse pelo portão.
Desde o princípio, habituei-me a pensar nele como o “portão de lado nenhum para sítio algum”. Trata-se de uma estrutura já de dimensões importantes. Tem três metros de largura por perto de quatro de altura. É inteiramente de ferro, sem pinturas, adornos ou placas com dísticos. Os seus dois portais giram em dobradiças laterais, emitindo uma estridente chiadeira metálica. Podia muito bem ser o portão de uma quinta, ou de um palacete milionário, ou até de um castelo. Mas ali, a meio da parcela de relvado, num dos cantos mais isolados do jardim, não há vestígios de valas, de muros ou de muralhas, nem mesmo de uma passagem marcada no solo que o enquadrasse. Eleva-se totalmente isolado e sem propósito evidente.
Por muito irrelevante que fosse de onde viera e porque haviam plantado ali tão grande e pesada armação, a verdade é que o incompreensível atiça a curiosidade. Nas minhas caminhadas esporádicas pelo jardim, fui dando comigo a observá-lo cada vez mais amiudadamente. Não posso dizer ao certo se me deixava levar pela ilusão de que as suas travessas recobertas de ferrugem se decidiriam a partilhar um pouco da sua história, ou se simplesmente lamentava a sua sorte.
Para minha sincera estupefação, reparei que patos e galinhas, que por aquela região circulavam sempre em grande número, o evitavam como o diabo foge da cruz. No seu deambular em busca de comida, descreviam largos arcos em redor do gradeamento e, se por alguma razão eram encurralados contra ele, procuravam sempre a fuga por uma rota que os mantivesse ao largo. Que raio significava aquilo? Que viam ou sentiam os animais de tão assustador?
E… fiquemos por aqui, porque quero provocar em vocês a mesma curiosidade de que nos fala o autor. Para saber o desfecho, terão de ler a história completa, publicada no livro Rebeldes e Rebeldias. Trata-se de um conjunto de contos de carácter histórico, disponível em várias plataformas digitais, para quem desejar aprofundar esta leitura. Jorge Campos é também autor do romance histórico A Condessa de Goa, cujo lançamento teve lugar em Cascais, no último verão.

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