SEM DIMENSÃO: O Drama da Vida dos Idosos


Há talvez uns dois meses, o jornal Público trazia, logo na sua primeira página, esta notícia, depois desenvolvida no seu interior:
“VIRGÍLIO LIMA, líder do Montepio: Estamos a comprar casas aos mais velhos para poderem pagar os lares.”
Tenho aqui de dizer que fiquei deveras emocionado ao ouvir a referência a esta notícia aí pela uma e pouco da madrugada, algo antes de me deitar. Felizmente, temos, eu e minha mulher, casa própria e uma reforma que nos permite viver com dignidade. Em todo o caso, fiquei deveras atingido no plano íntimo, até por reconhecer, há muito, o (quase) inultrapassável estado de pobreza em que vive uma mui boa parte dos nossos idosos. E agora ainda mais, depois da tragédia que atingiu tantos portugueses, sem que ainda percebamos a duração deste calvário.
Esta notícia daquele jornal comportou logo, para mim, como certamente para quem revelou o que então estaria a passar-se, uma dor muitíssimo profunda, ao reconhecer uma realidade que a todos custa profundamente. No meio da atual tragédia, que atingiu boa parte de Portugal, a realidade transportada pela notícia acima mostra uma incapacidade que não pode ser nunca facilmente justificada. É possível fazer melhor, e mesmo muito melhor. Aliás, muitíssimo melhor.
Aos idosos do nosso tempo, em número crescente no tecido social português, falta uma imensidão de condições que são essenciais para se poder sobreviver, ainda que muitíssimo longe de uma satisfação plena. É uma realidade que tem de considerar-se como um grande falhanço da classe política da nossa III República. Uma realidade muitíssimo dolorosa, e que já vai podendo ver-se, à vista desarmada, por locais em crescendo no nosso tecido social.
Hoje, depois de escutar as palavras do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, senti um mínimo de arrepio, não podendo, aqui, deixar de reconhecer razão às considerações de André Ventura, embora o meu voto, como se sabe, vá para António José Seguro. A verdade é que 2 + 2 = 4, mesmo quando tal seja dito por André Ventura. Um tema em que faria grande acerto uma intervenção de António José Seguro. E mesmo dos candidatos presidenciais afastados na primeira volta.
Por fim, um acontecimento, em boa medida complementar, do exposto anteriormente e por mim vivido pela hora do almoço deste domingo. Já a cerca de 50 metros do restaurante onde almoçara, fui abordado, quase sem palavras, por certo senhor africano, aparentando entre os 25 e os 30 anos, perguntando se podia ajudá-lo de algum modo. Como normalmente, desta vez nem um cêntimo tinha comigo. Depois de lhe expor esta realidade, quase de modo instantâneo, lá voltei ao restaurante, onde lhe dei a escolher o que entendesse, embora o mesmo, no fim-de-semana não sirva almoços.
O jovem escolheu o que quis: um pão de leite misto e um café com leite, claro, levando consigo um pão, de comprimento médio, com chouriço. A caminho do restaurante, o jovem expôs-me que estava clandestino em Portugal há cerca de duas semanas, tendo estado a trabalhar até final da manhã, mas que o patrão lhe comunicou só poder pagar-lhe depois de estar legalizado…!!
Este episódio causou-me uma revolta íntima, porque o que aquele patrão fez foi um ato de escroqueria. A ser como explicou, por fim, ao jovem, devia, então, ter-lhe perguntado, primeiro que tudo, se estava numa situação legal, decidindo, a seguir, como entendesse. Deixei o jovem no restaurante, partindo para as compras, vindo a pagar, mais tarde, o consumo total em dívida, o meu e o operado com o tal jovem.
Nós ainda temos uma (dita) democracia, mas continuamos a viver a anos-luz da sua verdadeira realidade. Só se pode construir uma sociedade capaz e justa se cada um dispuser de uma consciência mínima sobre os seus deveres perante toda a comunidade, em especial dos mais necessitados, e por razões as mais diversas. Infelizmente, uma enorme parte dos nossos idosos vive com carências absolutamente gritantes, e logo em domínios essenciais. Há que fazer muitíssima e imensamente melhor!

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