Um discurso importante


No fórum económico em Davos, Mark Carney proferiu um dos discursos mais brilhantes dos tempos recentes.
Não se trata de nenhum endosso político ou particular à pessoa ou partido em questão. Trata-se do pragmatismo face à realidade que vivemos combinado com um idealismo em construir algo melhor.
Basicamente Carney disse: vivemos atualmente na selva, e pensarmos diferente é um engano e arriscamo-nos a ser devorados pelos predadores; no entanto, todos aqueles que ambicionam por um mundo justo pautado por princípios podem e devem juntar-se para não se vergarem a esses predadores e à perturbação e risco que causam. Este discurso teve repercussões.
Amigos e conhecidos que são independentistas no Quebec disseram algo que me deixaram boquiaberto: “tive orgulho em ser canadiano”!!!
É isto a que se chama liderança.
Mas são necessários mais passos.
Nos tempos que correm tenho quase certeza que as ideologias estão mortas, tal como as conhecemos ao longo do século passado. As ideologias mostraram a sua limitação: a realidade!
Nada a pode ignorar pode demasiado tempo sobre pena de se tornar uma ruína viva.
E as ideologias, enquanto conceção por um ou poucos indivíduos que verteram nelas as suas frustrações, desenganos e violência, chocaram-se com a realidade vezes sem conta até ao ponto que temos dificuldades em definir agentes e movimentos políticos, tal o entrelace de ideias e propostas que se sobrepõem entre agentes opostos, que mais parecem imagens uns dos outros.
As sociedades chegaram também a essa conclusão, pela facilidade em que admitem a qualquer custo aceitar personalidades “fora do sistema”, que no entanto não passam de oportunistas e intrujões. Mesmo aqueles que se pretendem definir, acabam no erro de misturar ideias de ideologias contrárias, esvoaçando de conceito em conceito, acabando por praticar o seu oposto ou uma mistura desastrosa dos mesmos.
Mas Carney chamou às mentes do que o ouviram conceitos simples, inadiáveis e fundamentais, que nenhum agente ou personalidade pode ousar chamar a si como sua propriedade.
A mistura perfeita entre o “onde estamos” e “o que podemos fazer e devemos ser” foi perfeita. Recomendo vivamente a todos que não o ouviram, ou pelo menos leiam as transcrições do seu discurso.
Àqueles que leem estas humildes linhas, sejam mais portugueses pelas suas raízes, mais canadianos por já terem nascido aqui descendentes de emigrantes portugueses, ou uma mistura de ambos, é importante estarem conscientes do momento que se vive. Ambas as nações pelas suas posições geográficas e políticas têm de estar atentas, e por conseguinte, os seus cidadãos têm de estar à altura do momento, se não quiserem ser devorados por feras.

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