Champions: Benfica 4-2 Real Madrid – Estava escrito nas estrelas

Artigo escrito por David Marques @MaisFutebol.iol.pt

Além de precisar de vencer o Real Madrid, o Benfica precisava de um alinhamento cósmico – que se viria a revelar perfeito – para resgatar uma presença quase utópica no play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões.
O que se passaria em muitos dos outros palcos nos quais se jogava também o futuro dos encarnados era do domínio do incontrolável. Por isso, restava – como se fosse coisa pouca (!) – à equipa de José Mourinho ir em busca da sua própria felicidade sem o peso de outras batalhas que se cumpriam à mesma hora.
E isso implicaria enfrentar o maior clube da história e fazer-lhe frente como há seis décadas, quando o Real Madrid já era enorme e o Benfica lhe fazia frente na luta pela soberania europeia como naquelas tardes em Amesterdão e na antiga Luz, e sem medo de efeitos colaterais que pudessem trazer o arrojo de apostar em Prestianni e Schjelderup de início e de abdicar de um médio puramente defensivo.
«Ou matas ou morres de pé», afirmara, na véspera, Mourinho, que também avisara que o Benfica teria de ser mais eficaz do que fora oito dias antes em Turim. E o mote lançado por Mourinho pareceu começar a transformar-se em profecia ao fim de meia-hora. Porque o Benfica falhava em capitalizar o muito que jogava diante de um Real que, ainda que lhe falte a saúde de outros tempos, nunca deixa de ser MADRID. E porque o golo de Kylian Mbappé completava o círculo perfeito do que do que o técnico das águias temia.
Por minutos, o Benfica aparentava-se incapaz de responder à desvantagem com o bom futebol dos 30 minutos iniciais que uma defesa sólida, um meio-campo competente e um Prestianni acima de todos haviam tornado possível.
Trubin voou para negar o segundo dos merengues Asencio e no minuto seguinte Schjelderup empatou a passe de Pavlidis na conclusão de uma transição rápida.
Competentíssimo a explorar as gritantes lacunas defensivas dos merengues, o Benfica voltou, instantes depois, a esbarrar naquilo que pareceu, até ao ponto final perfeito da epopeia que se escreveu nesta quarta-feira fria e chuvosa, ser um seu maior inimigo: a eficácia.
A Schjelderup faltou o discernimento de não rematar contra Valverde; a Barreiro acreditar que tinha na cabeça, diante do Real Madrid, um dos golos mais fáceis da carreira; e a Dedic ver Pavlidis solto no coração da área quando se decidiu pelo remate. Mas, em cima do intervalo, de um penálti de Tchouaméni sobre Otamendi nasceu o golo de Pavlidis que levou a águia em vantagem para os balneários, mas ainda fora da zona de acesso ao play-off. Na imprensa de Madrid lia-se que o Real desmoronava na Luz. Com um penálti polémico, mas com total justiça que era sustentada pelos números: 14 remates, uma mão-cheia (ou mais) de grandes oportunidades e 2.40 de golos esperados, que até quem não domina a matemática deste futebol moderno sabe que é muita coisa. E quando os espanhóis reconhecem os méritos de sus hermanos é porque é mesmo caso para isso. Ou mais do que isso, até! A segunda parte trouxe um Real Madrid mais forte e um Benfica que, no fundo, foi forçado a ser uma equipa total: com momentos de brilhantismo com bola, mas também de enorme capacidade para suportar momentos difíceis sem ela, tendência que se acentuou após a resposta, ainda antes da hora de jogo, de Mbappé ao bis de Schjelderup.
Os últimos 30 minutos de jogo tão depressa passaram rápido como devagar, à medida daquilo que interessava aos encarnados, que subiram e desceram da zona de apuramento.
Se tudo o resto falhasse, que ao menos o Benfica se despedisse da Champions com uma vitória sobre a maior equipa de todas a que jogam a competição. Esse pareceu, à medida que os outros jogos terminavam, ser o único destino possível da equipa de Mourinho, limitada no banco (primeira substituição surgiu ao minuto 83), em aparente queda física perante um adversário refrescado e cada vez mais ameaçador e incapaz de concretizar as respostas que, mesmo em défice de energias, conseguira dar naquele remate de Sudakov e nas tentativas de Prestianni e de Barreiro travadas por Courtois.
De Bilbau, o eterno rival Sporting dera uma ajuda importante, mas faltaram a do Ajax em Amesterdão ou a do Atlético em Madrid e todas as outras que fossem necessárias. E todos esses jogos já tinha terminado, o que deixava o Benfica entregue a si próprio.
Das bancadas surgiram gritos de «só mais um». Que todos pareciam perceber à exceção, ironicamente (!), de Trubin, que se deitou na área após recolher uma bola no ar e recusar lançar um homem na frente que tinha campo aberto para ser feliz até à baliza de Courtois.
Até que, instantes depois, de um livre a meio do meio-campo do Real nasceu o momento futebolístico mais incrível da noite e, arriscamos dizê-lo com elevada dose de certeza, alguma vez testemunhado por muitos dos de 64 mil adeptos que assistiram a este jogo.
Com o Real Madrid reduzido a nove – fruto das expulsões de Asencio e de Rodrygo já na compensação – Trubin subiu à área contrária e voou (SIM, TRU-BIN) para escrever o final perfeito de uma noite inesquecível e completar o tal alinhamento cósmico perfeito.
Estava escrito nas estrelas.

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