O paradoxo da escola socialista

Imaginem uma escola onde existem cinco alunos cada um com o seu nível de aproveitamento: um de 20%, outro de 40%, outro de 60%, outro de 80% e finalmente um de 100%. Para simplificar, vamos assumir que o nível de passagem de ano é o usual em Portugal, ou seja, 50% ou mais.

Como a escola abraça os princípios socialistas de igualdade e redistribuição para eliminação de elites e consequentemente de classes, obriga a uma redistribuição das notas dos alunos com melhor aproveitamento para os alunos de pior aproveitamento. Temos assim uma redistribuição conforme quadro para melhor visualização:

Aproveitamento ANTES
da redistribuição
Média: 60% Aproveitamento DEPOIS da redistribuição
20%60%
40%60%
60%60%
80%60%
100%60%

Como se verifica pelo quadro acima, a média não se altera com a redistribuição, ou seja, não há inflacionamento das notas no conjunto. Os alunos com pior aproveitamento ganham assim na mesma medida que os alunos com melhor aproveitamento perdem: o aluno de 100% perde 40%; o aluno de 20% ganha os mesmos 40%.

A igualdade é absoluta. Mas será assim mesmo? Continuando a apelar à vossa imaginação, peço agora que se coloquem nos sapatos de cada um destes alunos. Comecemos pelo aluno de pior aproveitamento. Este vê o seu desempenho ser artificialmente nivelado por cima, ou seja, não revela os verdadeiros resultados do seu trabalho estudantil. Mas fica feliz pois não se apercebe da necessidade de fazer algo diferente e melhor, continuando assim o comportamento que levou ao seu fraco desempenho real.

Em contrapartida temos o aluno de melhor desempenho a ceder larga margem dos seus resultados em benefício de outros com pior desempenho. É assim forçado a abdicar dos seus resultados. Entre estes dois extremos há depois uma série de acomodados em torno da média que se esforçarão por obter também a benesse da redistribuição, ou seja, resultados que não advêm do seu esforço próprio, ou na melhor das hipóteses manter-se-ão na indiferença por se sentirem pouco afetados. Agora imaginem que o melhor aluno se indigna do método escolar e sai da escola para outra que julgue ser mais justa de acordo com o seu valor escolar. O quadro acima ficará:

Aproveitamento ANTES
da redistribuição
Média: 50%Aproveitamento DEPOIS da redistribuição
20%50%
40%50%
60%50%
80%50%

E novamente temos a saída de mais um aluno, o melhor do grupo, pelo que a terceira versão do quadro será:

Aproveitamento ANTES
da redistribuição
Média: 40%Aproveitamento DEPOIS da redistribuição
20%40%
40%40%
60%40%

Se continuássemos verificaríamos alguns aspetos interessantes. Primeiro, o nível médio de aproveitamento baixa a cada saída dos melhores. Segundo, a redistribuição é cada vez mais afetada, pois alunos que não eram tocados por esta passam também a ter que contribuir, incluindo alguns que estavam acima da nota de passagem acabam por cair na “miséria” escolar abaixo dos 50%. Alunos “mais necessitados” acabam também por receber cada vez menos, o que é paradoxal pois cada vez mais há alunos de pior aproveitamento a contribuir para a redistribuição. Terceiro, há um claro “empobrecimento” do aproveitamento escolar do grupo de alunos, como se vê pela constante queda da média que começou nos 60% e no terceiro quadro já vai nos 40%, associado também à constante queda da população estudantil.


Assumamos que cada aluno na realidade representa mil alunos, ou cem mil, ou mesmo um milhão e vamos transpor esta realidade para a economia de um país. Bem sei que as premissas simplistas deste exemplo vão expor-me às críticas daqueles mais estudados em economia, ciência interessante que conjuga a exatidão do cálculo matemático à incerteza do comportamento humano na gestão de recursos. No entanto, o exemplo acima revela interessantes similaridades com a realidade das experiências socialistas que viveram e ainda vivem algumas sociedades. Por exemplo, o êxodo de estudantes da escola levaria a escola a estancar esse mesmo êxodo pela proibição de abandonarem a escola. Por acaso os países com regimes vincadamente socialistas não limitavam a emigração, por vezes mesmo a movimentação interna da sua população de forma rígida?


Sinto-me profundamente triste e indignado que em pleno século XXI, em Portugal, se atire para a praça pública propostas de controlo de preços de bens essenciais, pelo novo coordenador do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza. Bem sei que é sociólogo de formação, mas tendo em conta a facilidade e proliferação de estudos económicos existentes atualmente, ele incorre no mesmo erro de Marx e Engels e de seus seguidores mais ferozes. As primeiras experiências socialistas revelaram desde cedo a fragilidade e inconsistência das suas teorias a nível económico, com resultados dramáticos.

Cuba é ainda um exemplo atual da teimosia com o erro. Se podemos aceitar a responsabilidade do socialismo para uma maior consciencialização da sociedade para o sofrimento das camadas mais baixas da sociedade, enquanto também merecedores de oportunidade, contudo reconhecemos que não trouxe as soluções que levantem essa camada mais infortunada ou mais exposta aos riscos económicos. Tirar a uns para dar a outros é de uma infantilidade grosseira para um adulto no século XXI. Quando alguém fala em controlo de preços em bens essenciais, o que eu vejo é destruição da camada produtiva desses mesmos bens essenciais. Pensemos bem: se o mercado corrente não consegue produzir esses bens a um preço comportável, o que estamos a pedir é que os vendam abaixo de preço de custo.

À semelhança do exemplo da escola acima, os melhores produtores rapidamente sairão do mercado por este ser incomportável e injusto. A produção diminui até ao ponto em que não há produtores nem mercado. Aqui o Estado assume a produção, à boa moda das teses socialistas.

Mas depara-se exatamente com o mesmo problema: os custos são acima do preço tabelado. O problema persiste. Resultado: empobrecimento geral da mesma forma que a escola “empurrou” os melhores alunos para fora do tecido produtivo. Vejam Cuba, que pouco ou nada produz e que vive das exportações de serviços: turismo e medicina.
Ter a sociedade portuguesa onde políticos, sindicatos, órgãos de comunicação social, até empresas e uma boa parte da população ainda imersas neste obscurantismo é deveras confrangedor. Para quando uma escola diferente face à experiência já repetida tantas e tantas vezes?

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