Um Mundo Adverso


O último episódio ocorrido em Ceuta é revelador de um mundo cada vez mais adverso, não pela rivalidade entre nações, que pode ser salutar, mas pela falta de princípios que de forma descarada se instala rapidamente na relação entre nações.

Esta era inaugurada pelo inexorável Trump encontrou ressonância em muitos líderes autocráticos que ainda não tinham encontrado as circunstâncias certas para se exprimirem desta forma no relacionamento entre nações.

Nascido do orgulho e egoísmo desmedidos, esta forma de relacionamento está a erodir todas as regras do jogo diplomático baseado no entendimento ou na construção de pontes, passando a um jogo de intimidação, ameaças e violência.

Os ataques híbridos que países europeus sofrem nas suas fronteiras mais a leste; drones suspeitos que voam em zonas sensíveis, ou como recentemente, com cargas explosivas; financiamento de movimentos políticos que pretendem destruir as bases das democracias ocidentais; o saque de Maduro da Venezuela sem no entanto qualquer alteração de regime; o estreito de Ormuz; a mistura de negócios privados com interesses de estado… podia continuar a lista que é extensa, mas deveria servir de aviso flagrante aos eleitores que oscilam entre loucuras sem encontrar o porto firma mas sadio.

O regresso a ambições territoriais, muitas delas desfasadas da realidade mas apelativas ao orgulho exacerbado de nacionalistas, representa um retrocesso perigoso.

A infantilidade do carácter dos dirigentes e de muitos propagandistas, habilidosos na utilização e propagação da palavra, de palavra vazia bem certo, mas eficaz ao atingir multidões, destrói toda e qualquer base de conversação racional.

Quando o Canadá negoceia novo acordo comercial em conjunto com o México e os EUA, este último posicionando-se por forma a destruir qualquer entendimento exceto se esmagar o Canadá e o México, automaticamente elimina qualquer possibilidade de entendimento. Nunca nos entendemos com alguém se esse alguém não se quer entender connosco.

Tanto o Canadá e a Europa enfrentam desafios semelhantes colocados de forma diferente: ameaças externas que se agigantam sem que nos tenhamos preparado para isso a tempo. E a questão fundamental é tempo. Porque confiámos num mundo que já não existe, perdemos tempo precioso.

Mas continuar com a cabeça enterrada na areia, enquanto perdemos tempo com conversas estéreis de filosofia política sobre esquerdas e direitas, apenas estaremos a nutrir as condições certas para um futuro difícil num mundo hostil onde as regras de cavalheiros já não existem.