Parque Jarry: Um Espaço de Todos, Não de Alguns

Olá, Andorinhas!
O mês de agosto já vai a meio e os festivais ainda não pararam aqui em Montreal. Eu vivo muito perto do Parque Jarry e do Estádio de Ténis do Canadá. Gosto de incentivar todas as formas de desporto, mesmo que, nestes dias, eu já não seja muito desportiva! Houve tempos em que corria 10 quilómetros numa hora e, agora, só quero fazer yoga num conhecido estúdio do Plateau.
Esse estúdio fica ao lado do Restaurante Janos, onde, há algum tempo, tive uma conversa com alguém muito tarde, ou talvez cedo demais… Não me lembro dos detalhes, ou talvez seja melhor não recordar!
Mas, esta semana, quero falar-vos do Parque Jarry, onde passei parte da minha juventude e onde também passei muitos verões junto à piscina com os meus filhos, quando eram pequeninos. No inverno, também costumava ir até lá com a minha cadela e os meus filhos, para brincar na neve e patinar. E tudo isto de forma gratuita.
Todos os verões, durante duas semanas, a paz e a tranquilidade do meu bairro e daquele parque desaparecem, com a chegada de milhares de visitantes que vêm assistir ao ténis no Estádio de Ténis do Canadá. Acho maravilhoso que tantas pessoas se juntem para apreciar este grande espetáculo desportivo, mas, ao mesmo tempo, o nosso bairro transforma-se completamente.
O Parque Jarry tem patos, uma área para cães que a minha cadela adora e duas piscinas: uma para os mais pequeninos e outra maior, onde podemos levar um piquenique, aproveitar a relva, o calor do verão e até fazer um churrasco.
Agora, o Tennis Canada está a desenvolver-se rapidamente, e acho muito positivo que o ténis cresça e tenha cada vez mais importância. Mas não acredito que isso deva acontecer à custa dos cidadãos que utilizam aquele parque todos os dias — como eu e os meus vizinhos.


O Tennis Canada pretende destruir a piscina e utilizar esse espaço para construir mais campos de ténis e outras instalações. E eu estou muito activa contra este projecto. Vou explicar-vos porquê.
No bairro de Villeray, em geral, os carros circulam a 30 km/h, porque partilham as ruas com bicicletas durante todo o ano. Durante a semana em que o Tennis Canada realiza o seu torneio, as minhas ruas ficam cheias de Lamborghinis, Porsches, BMW e Mercedes à procura de estacionamento.
Muitos circulam demasiado depressa por ruas onde brincam crianças e onde existem várias Ruelles Vertes, outro movimento comunitário criado para tornar o bairro mais bonito, seguro e agradável, sobretudo para os mais pequenos.
Quem conduz demasiado depressa, à procura de estacionamento para chegar a tempo ao ténis, talvez não consiga perceber o verdadeiro valor do meu bairro e do meu parque.
Todos são muito bem-vindos, mas não à custa dos cidadãos que aqui vivem.
O Parque Jarry é público e deve continuar a ser público. Não devemos privatizar ou transformar um espaço que proporciona lazer, tranquilidade e segurança às famílias e, sobretudo, às crianças.
Outra razão pela qual sou totalmente contra este projecto é o facto de o bairro de Parc-Extension, uma das zonas mais vulneráveis de Montreal, estar mesmo ao lado do parque. Os habitantes desse bairro também não devem perder o acesso gratuito a este espaço verde.
Considero um enorme desserviço à comunidade retirar espaço verde e equipamentos públicos a pessoas que deles precisam. Muitos dos habitantes de Parc-Extension são imigrantes que chegaram recentemente ao Canadá e que, muitas vezes, nem sequer têm um quintal onde possam colocar uma pequena piscina ou simplesmente desfrutar de um espaço ao ar livre. Para muitas dessas famílias, o Parque Jarry é esse lugar.
Os representantes do Estádio defendem que o seu desenvolvimento é necessário, uma vez que existem muitos cidadãos que utilizam as instalações ao longo do ano e que é importante incentivar os jogadores de ténis nacionais. Nesse ponto, estou de acordo: é preciso dar oportunidades e apoiar o desporto.
Mas acredito que existem outras formas de desenvolver o ténis e as suas instalações sem retirar espaços essenciais à comunidade.
É possível encontrar uma solução em que todos possam ficar satisfeitos: os amantes do ténis, os atletas, os visitantes e, sobretudo, os habitantes dos bairros que rodeiam o Parque Jarry.
Porque um parque público deve continuar a ser um espaço para todos — rico ou pobre, recém-chegado ou nascido aqui, criança ou adulto.
O progresso é importante, mas não pode significar perder aquilo que torna uma comunidade especial.
Ciao, Andorinhas livres!:::