Durante anos, sonhámos com este momento.
Falámos muitas vezes em levar o Grupo Folclórico e Etnográfico Português de Montreal a Portugal, em mostrar aquilo que fazemos do outro lado do Atlântico e, sobretudo, em pisar as terras onde nasceram muitas das tradições que representamos.
Este ano, finalmente, conseguimos realizar esse sonho. Fomos a Portugal. Fomos ao Minho. Fomos ao encontro das nossas raízes. O GFEPM é um grupo grande, com cerca de 90 elementos na sua totalidade. Nesta primeira viagem a Portugal, foi a parte do grupo que representa o folclore minhoto que partiu para uma digressão de nove dias. Foram nove dias intensos, vividos a um ritmo quase sem parar. Tivemos atuações, viagens, preparativos, encontros e muitas horas passadas juntos. Tivemos também uma onda de calor intenso que tornou tudo ainda mais exigente.
Mas, como diz o ditado, quem corre por gosto não cansa. E nós corremos muito, porque tínhamos um sonho para cumprir.

Finalmente, no Minho
Participámos em várias festas em: São Bento de Porta Aberta, Soajo e Ponte da Barca mas foram e as do Soajo e da diáspora as mais memoráveis.
Cada atuação teve o seu significado.
Durante tantos anos, em Montreal, cantámos, dançámos e vestimos os trajes que representam o Minho. Aprendemos danças, músicas e costumes através dos nossos familiares, dos nossos ensaiadores e de todos aqueles que, antes de nós, trabalharam para manter viva esta herança na comunidade portuguesa do Canadá.
Mas desta vez foi diferente.
Desta vez, estávamos nas terras que inspiram o folclore que representamos.
Estávamos rodeados por pessoas que cresceram com estes costumes. Vimos outros grupos, ouvimos outras músicas, observámos outros trajes e sentimos ainda mais a responsabilidade de representar aquilo que aprendemos e procuramos preservar em Montreal.
Foi também uma oportunidade para percebermos que, apesar da distância, fazemos parte de uma história muito maior do que o nosso próprio grupo.
O significado de bem-trajar
Uma das coisas que mais nos marcou nesta viagem foi olhar para os nossos próprios trajes com outros olhos.
Em Montreal, vestimos estas roupas vezes sem conta. Preparamo-nos para os espetáculos, ajudamo-nos uns aos outros a vestir e procuramos que tudo esteja no lugar. Mas fazê-lo no Minho, nas terras que representam as nossas raízes folclóricas, teve um significado diferente.
Foi aí que percebemos ainda melhor que bem-trajar é muito mais do que vestir um traje bonito. É conhecer aquilo que vestimos e compreender o que cada peça representa.
É preciso saber colocar o lenço na cabeça, usar corretamente a faixa e o chapéu, cruzar o franjeiro ao peito e respeitar a altura da saia e do avental.
É preciso conhecer os acessórios, desde os brincos de rainha às meias rendadas, passando pelo crucifixo, pelo relicário ou coração de Viana e pelo relógio de algibeira. É também saber distinguir quando se usam os socos ou as chinelas e conhecer o significado de elementos como o lenço dos namorados.
São pormenores que, vistos de fora, podem parecer pequenos. Para nós, fazem parte de algo muito maior: a vontade de representar com respeito e dignidade as gentes e os costumes que nos inspiram.
Durante a viagem, tivemos a oportunidade de observar outros grupos, reparar nos seus trajes e aprender com aquilo que víamos. Também olhámos para nós próprios e para a forma como nos apresentávamos. Foi uma maneira de confirmar conhecimentos, descobrir o que podemos melhorar e perceber que há sempre mais para aprender.
Vestir o traje no Minho fez-nos sentir uma responsabilidade diferente. Não estávamos apenas a representar o nosso grupo ou a comunidade portuguesa de Montreal. Estávamos a levar connosco uma parte da nossa história e a apresentá-la nas terras onde tantas destas tradições nasceram.
Talvez por isso tenhamos prestado ainda mais atenção a cada peça, a cada acessório e a cada detalhe. Queríamos que a nossa presença fosse motivo de alegria, mas também de respeito por aquilo que nos foi transmitido.
Sabemos que as danças podem evoluir e que cada grupo tem a sua maneira de as interpretar. Mas o traje lembra-nos de onde vimos e ajuda-nos a manter uma ligação ao passado. Por detrás de cada peça existem costumes, vivências e gerações que não queremos esquecer.
Regressámos com a certeza de que ainda temos muito para aprender, mas também com a satisfação de perceber que aquilo que fazemos em Montreal tem valor. Porque, quando vestimos o traje, não vestimos apenas o passado. Levamos connosco as pessoas que nos ensinaram, a comunidade que nos mantém unidos e o compromisso de transmitir esta herança às gerações que vêm a seguir.
Medir-nos com os melhores
Encontrar outros grupos folclóricos foi também uma experiência importante. Observámos, aprendemos, trocámos experiências e, naturalmente, comparámo-nos. Queríamos perceber se aquilo que fazemos em Montreal estava à altura do trabalho desenvolvido pelos grupos em Portugal. E saímos dessa experiência mais confiantes.
Percebemos que não somos diferentes. Não somos menos bons. A paixão é a mesma. A dedicação é a mesma. A vontade de preservar os costumes dos nossos antepassados também é a mesma.
A distância entre Montreal e o Minho pode ser enorme, mas, quando a música começa e vestimos o traje, essa distância parece desaparecer. Somos portugueses da diáspora, mas sentimos que fazemos parte desta mesma história. Foi importante perceber que aquilo que fazemos em Montreal, muitas vezes longe das nossas terras de origem, tem valor e pode estar lado a lado com o trabalho de grupos que vivem diariamente no território onde estas tradições nasceram.
Para nós, esta descoberta foi uma das grandes recompensas da viagem. Levámos connosco a vontade de aprender e regressámos com a certeza de que o trabalho desenvolvido ao longo de tantos anos, do outro lado do Atlântico, vale a pena. Não foi apenas representar. Foi viver. A nossa viagem não se limitou aos palcos. Tivemos também a oportunidade de participar numa malhada, como se fazia antigamente. Foi um momento particularmente especial, porque pudemos experimentar e conhecer melhor uma atividade que fazia parte da vida das gerações anteriores. Ali percebemos que preservar o património não significa apenas dançar ou apresentar um espetáculo. Significa também conhecer os trabalhos, os costumes, as ferramentas e a vida das pessoas que nos deixaram esta herança. Para muitos de nós, estes momentos foram uma oportunidade de compreender melhor um quotidiano que os nossos pais, avós e bisavós conheceram. Não estávamos apenas a representar uma cultura. Estávamos a aproximar-nos da vida que lhe deu origem. E talvez tenha sido precisamente nesses momentos, longe dos palcos e dos aplausos, que sentimos de forma mais profunda a importância daquilo que fazemos.
Reencontros que não estavam no programa
A viagem trouxe-nos ainda algumas surpresas que não estavam previstas. Fomos surpreendidos pela presença de antigos colegas que fizeram parte do grupo e que voltaram a juntar-se a nós. Mas a emoção foi ainda maior quando o nosso antigo ensaiador se integrou novamente no grupo e participou em dois espetáculos. Foi como recuperar, por alguns momentos, uma parte da nossa história. Revivemos memórias, recordámos pessoas e sentimos que os laços criados ao longo dos anos continuam vivos, mesmo quando os caminhos de cada um seguem direções diferentes.
Tivemos ainda outra surpresa muito especial: o Padre José Maria Cardoso, o sacerdote que durante tantos anos nos apoiou, apareceu para estar connosco. A sua presença tocou-nos profundamente. Porque um grupo folclórico não é constituído apenas pelas pessoas que hoje sobem ao palco. É feito também por todos aqueles que passaram por ele, que deram o seu tempo, que partilharam conhecimentos e que contribuíram para aquilo que somos hoje. Esta viagem permitiu-nos reencontrar algumas dessas pessoas e perceber que a história do GFEPM continua a ser escrita por todos os que, em diferentes momentos, fizeram parte desta família.
Nove dias que ficaram para sempre
Foram nove dias de muito calor, muito trabalho, muitas deslocações e pouco descanso. Mas foram também nove dias de alegria, amizade, reencontros e emoção. Vivemos momentos que dificilmente esqueceremos. Sentimos a responsabilidade de representar Montreal e a nossa comunidade portuguesa. Cada vez que vestimos os nossos trajes ou entrámos num palco, recordámos o caminho percorrido pelo grupo e por todos aqueles que contribuíram para chegarmos até aqui. Acima de tudo, tivemos a oportunidade de cantar e dançar nas terras onde nasceram muitas das tradições que levámos connosco para o Canadá. Esta primeira viagem do GFEPM a Portugal foi muito mais do que uma digressão. Foi uma oportunidade de aprender, de nos conhecermos melhor enquanto grupo e de reforçarmos os laços que nos unem.
Foi também a confirmação de que a cultura portuguesa atravessa oceanos e continua viva quando existem paixão, dedicação e vontade de transmitir às gerações seguintes aquilo que recebemos dos nossos antepassados.
Partimos de Montreal com um sonho.
Regressámos com memórias, aprendizagens e emoções que ficarão connosco durante muitos anos.
E, depois de termos vivido esta experiência, ficámos com uma certeza:
este não foi um ponto final. Foi apenas o primeiro capítulo da nossa história em Portugal.
