Viver nos Açores tem um preço. Viver numa ilha pequena do arquipélago pode ter um preço ainda mais elevado. É a dupla insularidade. E não se trata apenas do custo dos produtos que chegam por via marítima ou aérea ou das despesas de transporte. Trata-se, também, do preço de uma distância que, muitas vezes, se transforma numa penalização diária para quem escolheu fazer a sua vida numa das ilhas do arquipélago.
Por exemplo, nas Flores, no Corvo ou na Graciosa, a insularidade não é apenas uma realidade geográfica. É uma condição que se faz sentir na carteira, nas pequenas despesas domésticas e nos imprevistos que, em qualquer casa, podem surgir de um momento para o outro. Basta que uma máquina de lavar roupa avarie.
No Continente português, ou mesmo em São Miguel, uma avaria doméstica pode resolver-se, em muitos casos, com uma chamada telefónica. Existe uma rede de assistência técnica mais ampla, há maior disponibilidade de peças e os profissionais encontram-se, frequentemente, a uma distância relativamente curta. O técnico chega, identifica o problema, substitui a peça e a máquina volta a funcionar. A despesa, embora possa ser desagradável, tende a corresponder essencialmente ao custo da reparação.
Numa ilha pequena, a mesma avaria pode transformar-se numa conta muito diferente. Imagine-se uma máquina de lavar roupa que deixa de funcionar numa casa das Flores. O problema é simples: uma peça que precisa de ser substituída. Contudo, essa peça quase sempre não existi na ilha. Poderá ser necessário encomendá-la a São Miguel, aguardar pelo seu transporte e, dependendo da disponibilidade de assistência local, fazer deslocar um técnico. A deslocação pode implicar viagens, ligações entre ilhas, despesas de alojamento e alimentação, além do próprio trabalho de reparação.
No final, aquilo que começou por ser uma avaria banal pode representar uma despesa de várias centenas de euros, dependendo do equipamento, da peça necessária e das condições da deslocação. A máquina é a mesma. O problema é o mesmo. O que muda é o lugar onde a avaria acontece. E é precisamente aqui que se revela uma das faces menos discutidas do custo de vida nas ilhas, ou seja, o preço de não ter serviços por perto.
Não se trata de afirmar que todas as reparações nas Flores, no Corvo ou na Graciosa são necessariamente mais caras, nem que todos os equipamentos avariados exigem a deslocação de profissionais de outras ilhas. Existem técnicos locais, situações que podem ser resolvidas à distância e reparações que não implicam custos extraordinários. Mas, quando falta uma peça, não existe assistência disponível ou é indispensável a deslocação de um especialista, a geografia passa a ter um peso direto na fatura.
Em São Miguel, uma peça pode estar disponível num fornecedor local e o técnico poderá conseguir atender vários clientes no mesmo dia. Numa ilha de menor dimensão, a mesma intervenção pode exigir uma operação logística inteira para resolver um problema doméstico. É esta diferença que importa compreender quando se compara o custo de vida nos Açores com o do Continente e, dentro do próprio arquipélago, o das ilhas maiores com o das mais pequenas.
A insularidade açoriana não é uniforme. São Miguel e a Terceira dispõem de mercados mais amplos, maior concentração de empresas e uma oferta de serviços mais diversificada. Nas Flores, no Corvo e na Graciosa, a dimensão do mercado e a distância aos principais centros de abastecimento podem limitar as alternativas disponíveis. Quando há menos clientes, torna-se também mais difícil distribuir os custos fixos de uma atividade por um número elevado de serviços. E, quando a deslocação é inevitável, alguém terá de a pagar.
Esse alguém é, na maioria das vezes, o consumidor. O problema vai muito além de uma máquina de lavar. Pode acontecer com um frigorífico, uma bomba de água, um equipamento de aquecimento, uma peça de uma viatura ou uma ferramenta indispensável ao trabalho de uma pequena empresa. O que, noutro lugar, seria uma despesa previsível pode converter-se, numa ilha pequena, num encargo inesperado, agravado pela espera e pela falta de alternativas.
A coesão territorial não pode significar apenas garantir que as ilhas continuam habitadas. Deve significar criar condições para que seja possível viver nelas com dignidade, acesso a serviços e custos que não penalizem sistematicamente quem está mais longe.
Porque uma máquina de lavar roupa não é um luxo. É um equipamento básico da vida quotidiana. E o facto de avariar numa ilha mais pequena não deveria transformar um problema doméstico numa despesa incomportável.
No fundo, o verdadeiro preço de viver nas ilhas dos Açores não está apenas naquilo que custa chegar até elas. Está também naquilo que custa resolver os problemas depois de lá chegar.
O preço de viver nas ilhas
