Há resultados eleitorais que reabrem feridas antigas e no passado dia 5 de outubro, no Quebeque, a vitória do separatista Parti Québécois (PQ), liderado por Paul St-Pierre Plamondon, devolveu ao poder uma formação que durante anos pareceu condenada à história e recoloca no centro da política canadiana uma palavra que Ottawa conhece bem: independência.
O PQ conquistou 59 dos 127 lugares da Assembleia Nacional, cinco aquém da maioria absoluta, e obteve cerca de 28% dos votos. Será, portanto, um governo minoritário, obrigado a negociar com as restantes forças políticas. A própria dimensão do resultado aconselha prudência: a maioria dos eleitores quebequenses votou em partidos que não defendem um novo referendo sobre a independência.
Ainda assim, há algo de extraordinário neste regresso. É impossível olhar para o resultado sem recordar René Lévesque. Foi ele quem, em 15 de novembro de 1976, conduziu pela primeira vez o Parti Québécois à vitória eleitoral. O partido conquistou então 71 dos 110 lugares e 41,37% dos votos. Lévesque tornou-se primeiro-ministro e inaugurou uma nova época na história do Quebeque, marcada pela afirmação da identidade francófona e pela confrontação constitucional com o resto do Canadá.
Lévesque não era apenas um político. Era, também, um jornalista e um homem de ideias, convencido de que o Quebeque constituía uma sociedade nacional com direito a escolher o seu destino. Sob o seu governo seria aprovada, entre outras medidas, a célebre Carta da Língua Francesa, a Lei 101, destinada a reforçar o estatuto do francês na vida pública e económica da província.
Meio século depois, o cenário é diferente, mas a pergunta fundamental permanece. O Quebeque é uma nação francófona integrada no Canadá. Possui uma identidade histórica, cultural e linguística profundamente distinta da maioria anglófona do país e dispõe de uma considerável autonomia dentro da federação canadiana. Nesse sentido, pode evocar-se, com as devidas diferenças constitucionais, o exemplo da Escócia no Reino Unido: uma nação sem ser um Estado soberano, com instituições próprias e uma identidade nacional suficientemente forte para alimentar um debate recorrente sobre a independência.
A comparação, contudo, não deve ser levada demasiado longe. A Escócia integra o Reino Unido e o Quebeque é uma das províncias do Canadá; os dois sistemas constitucionais são diferentes. O que os aproxima é sobretudo a coexistência entre uma identidade nacional muito forte e a pertença a um Estado soberano mais amplo.
É precisamente essa tensão que Paul St-Pierre Plamondon pretende transformar em projeto político. O novo primeiro-ministro quebequense nunca escondeu que o objetivo último do seu partido é a soberania. Mas também decidiu que não fará imediatamente o que os adversários esperavam: não convocará um referendo enquanto o Presidente dos Estados Unidos permanecer na Casa Branca. O próprio Parti Québécois justificou a decisão com a necessidade de garantir que uma questão tão decisiva seja debatida em condições serenas e sem a interferência das turbulências da política americana.
O nacionalismo quebequense regressa precisamente num momento em que o Canadá enfrenta uma relação particularmente difícil com os Estados Unidos, marcada pelas políticas comerciais. Plamondon entende que um referendo sobre a independência não deve ser realizado sob a sombra de uma conjuntura americana tão imprevisível. Há, portanto, uma espécie de paradoxo. O PQ ganhou as eleições falando de soberania, mas não recebeu um mandato inequívoco para separar o Quebeque do Canadá. Ganhou um governo, não ganhou ainda um país. E sabe que entre uma vitória eleitoral e uma vitória num referendo existe um abismo político.
A história comprova-o. O Quebeque já votou duas vezes sobre a independência. Em 1980, os soberanistas perderam. Em 1995, a derrota foi por uma margem extraordinariamente pequena. Desde então, a ideia independentista nunca desapareceu, mas deixou de mobilizar a maioria. O apoio à independência ronda atualmente os 30%, segundo análises citadas após a eleição.
É talvez por isso que a noite de 5 de outubro deve ser lida menos como o nascimento de uma nova crise constitucional e mais como o regresso de um velho fantasma à política canadiana. O Quebeque voltou a escolher o partido que promete, um dia, perguntar-lhe se quer ser um país. Mas esse dia não chegou. Primeiro haverá um governo minoritário, problemas económicos, negociações parlamentares e uma relação inevitável com Ottawa. Depois, quando a Casa Branca mudar de inquilino, poderá chegar a hora da pergunta.
Como em 1976, com René Lévesque, a questão não será apenas eleitoral. Será uma questão de identidade, de memória e de futuro. A diferença é que, desta vez, o sonho soberanista chega ao poder sabendo que terá de convencer uma sociedade que já aprendeu a viver entre duas certezas: ser uma nação e continuar a fazer parte do Canadá.
O Regresso do Sonho Separatista ao Quebeque
