Até quando continuará Rabo de Peixe a ser notícia sobretudo quando há tragédias, conflitos ou acontecimentos negativos?
Até quando esta Vila terá de assistir à divulgação de uma imagem que não corresponde à sua verdadeira dimensão, à sua identidade e à dignidade das suas gentes?
O que aconteceu na Festa de Nossa Senhora do Rosário deveria obrigar os órgãos de comunicação social a uma reflexão séria sobre a forma como olham para esta terra.
Vivemos dias extraordinários de fé, de participação popular, de cultura, de tradição e de pertença comunitária. A procissão de Nossa Senhora do Rosário, uma das maiores manifestações religiosas realizadas em São Miguel, foi um testemunho impressionante da vitalidade desta comunidade. Milhares de passos, rostos, promessas, famílias, emigrantes, músicos, voluntários e gerações inteiras uniram-se numa manifestação que encheu de orgulho esta Vila.
E pergunto: onde estavam as grandes reportagens? Onde estavam as câmaras que tantas vezes aqui chegam com uma rapidez impressionante quando há uma desgraça? Onde estavam os diretos, as entrevistas, os debates e a vontade de mostrar ao mundo a força de uma comunidade que sabe organizar, mobilizar, celebrar e preservar as suas tradições?
Não faltaram motivos. Não faltou dimensão. Não faltou beleza. Não faltou participação. Não faltou história. O que parece faltar, demasiadas vezes, é a mesma disponibilidade para mostrar o que de bom acontece em Rabo de Peixe.
E isto não é um simples desabafo. É uma denúncia! É uma questão de justiça, de responsabilidade jornalística e de respeito por uma população inteira.
O jornalismo tem o dever de denunciar problemas, investigar injustiças e dar voz a quem sofre. Mas tem também a obrigação de retratar a realidade na sua complexidade. Quando uma terra só ganha visibilidade pelas suas feridas, mas é ignorada nas suas conquistas, a informação deixa de oferecer um retrato completo e contribui para perpetuar um estigma.
Rabo de Peixe não é apenas aquilo que corre mal. Não é uma ocorrência policial. Não é um cenário de pobreza para abrir um noticiário. Não é uma coleção de problemas sociais à espera de uma câmara. É uma comunidade viva, trabalhadora, profundamente ligada ao mar, com uma identidade própria, uma força cultural extraordinária, uma religiosidade popular impressionante e gente que todos os dias luta por um futuro melhor.
Uma terra não pode ser condenada a viver eternamente dentro da imagem que os outros construíram dela.
E há outra questão que não podemos continuar a ignorar: a dimensão desta Vila e o lugar que lhe é reconhecido no contexto açoriano. Rabo de Peixe tem cerca de dez mil habitantes e uma realidade social, económica, demográfica e humana que exige atenção proporcional. A sua dimensão populacional, a juventude da sua população, os desafios sociais que enfrenta e o contributo das suas gentes para a economia regional não podem ser tratados como assuntos menores.
Compare-se, com rigor, a sua população com a de vários concelhos e localidades dos Açores. Observe-se a dimensão da sua comunidade, a sua dinâmica e a importância do setor das pescas. E depois responda-se, com honestidade: o espaço que Rabo de Peixe ocupa na informação regional corresponde à importância real desta Vila?
Se a resposta for não, então alguma coisa tem de mudar.
E não se trata de exigir privilégios, nem de pedir que se escondam os problemas. Trata-se de exigir igualdade de tratamento. Trata-se de perguntar por que motivo uma procissão de enorme participação popular, uma festa de grande significado religioso e cultural ou uma iniciativa que projeta o nome da Vila parecem valer menos, em termos noticiosos, do que os acontecimentos negativos que aqui ocorrem.
Quem paga impostos, quem trabalha, quem educa os filhos, quem participa na vida comunitária e quem contribui para a riqueza dos Açores tem o direito de esperar uma comunicação social que não olhe para a sua terra apenas através da lente do sensacionalismo.
E sim, esta crítica também se dirige a quem, estando dentro das próprias instituições regionais, parece esquecer-se de Rabo de Peixe quando chega a hora de reconhecer o seu valor. Não basta falar de inclusão, coesão social e combate ao estigma em discursos oficiais. É preciso demonstrá-lo nas prioridades, nas oportunidades, na presença institucional e na forma como se reconhece esta comunidade.
Não se combate o preconceito alimentando, por omissão, a imagem de que uma terra só merece atenção quando algo de mau acontece.
Aos órgãos de comunicação social deixo, por isso, perguntas muito concretas:
1- Porque não se acompanham, com a mesma insistência, os grandes acontecimentos positivos desta Vila?
2- Porque não se dá visibilidade ao trabalho das associações, das filarmónicas, dos grupos corais, das instituições sociais, dos jovens, dos pescadores, dos voluntários e de tantas pessoas que constroem diariamente uma comunidade melhor?
3- Porque não se mostram as histórias de superação, os exemplos de solidariedade, o património humano e cultural e a extraordinária capacidade de mobilização das nossas gentes?
4- Porque é que, tantas vezes, a imagem negativa parece merecer destaque imediato, enquanto a imagem positiva fica remetida ao silêncio ou a uma nota de rodapé?
Não se pede favor! Exige-se critério! Não se pede que se esconda a realidade. Exige-se que se mostre a realidade inteira!
E quem tem a responsabilidade de informar não pode continuar a ignorar que as palavras, as imagens e as escolhas editoriais também moldam a maneira como uma população é olhada, julgada e tratada. Os estereótipos não nascem apenas de afirmações ofensivas, também se alimentam da repetição de uma imagem incompleta, da ausência de outras narrativas e do silêncio perante aquilo que merece ser reconhecido.
A Festa de Nossa Senhora do Rosário passou. Ficaram as imagens, a memória e o orgulho de uma comunidade que voltou a demonstrar aquilo de que é capaz. Mas fica também esta pergunta, que não deve ser esquecida: se Rabo de Peixe tivesse protagonizado uma das maiores desgraças dos últimos tempos, teria sido tão difícil conseguir câmaras, jornalistas e tempo de antena?
Que cada órgão de comunicação social faça a sua própria avaliação. Os factos, as escolhas editoriais e a diferença de tratamento merecem ser escrutinados.
A Vila Rabo de Peixe não pode continuar a ser grande para os problemas e pequena para os méritos. Não pode ser lembrada para as tragédias e esquecida nas celebrações. Não pode ser chamada à responsabilidade quando algo corre mal e deixada sozinha quando algo corre bem.
Esta Vila tem voz, tem história, tem dignidade e tem dimensão. E não aceitará eternamente que outros decidam mostrá-la apenas pela parte mais sombria da sua realidade.
Rabo de Peixe merece ser notícia quando chora, mas também quando canta. Quando enfrenta dificuldades, mas também quando vence. Quando precisa de ajuda, mas também quando dá ao mundo razões para se orgulhar.
O Meu Voto de Protesto, a Minha Denúncia!
