(Quem deseja a paz, que se prepare para a guerra)

Igitur qui desiderat pacem, præparet bellum , De Re Militari, Publius Flavius Vegetius Renatus

A guerra na Ucrânia está a caminho de completar o seu quinto ano este inverno que se aproxima. Os EUA ameaçam anexar a Gronelândia assim como o Canadá, incentivam a sua divisão, abertamente fazem negócios ilícitos com a Venezuela e a Rússia.
O Irão intensifica a sua agressividade face aos EUA e outros membros da região, suportando fações militarizadas em outras regiões para desestabilização. A China tem atitudes provocadoras no mar do sul da China contra seus vizinhos, construindo ilhas artificiais como postos avançados militares de forma a justificar jurisdição alargada e ilícita. Em África vários conflitos étnico-religiosos continuam com a matança e deslocação de populações inteiras. Nos países ocidentais que não estão diretamente em guerra – pois a Europa já está em guerra com a Rússia na Ucrânia – a desestabilização social é intensificada por forças políticas patrocinadas por potências estrangeiras beneficiando de problemas socioeconómicos e, acima de tudo, perda de identidade comum.
O Financial Times publicou um interessante artigo este fim de semana intitulado Are We Sleepwalking Into World War III? (Estaremos a entrar sonolentamente na 3ª Guerra Mundial?) de Gideon Rachman. Vale a pena ler. Pessoalmente, exceto situação absolutamente imprevisível, não vejo hipótese de evitá-la. Aliás, tecnicamente já nos situamos nela. Se contarmos que há países que partilham abertamente alianças e consequentemente tecnologia militar entre si para agressão e defesa em conflitos ativos. Se contarmos que a própria Coreia do Norte tem soldados envolvidos no conflito da Ucrânia. Se contarmos que a interseção entre interesses diversos com ideologias expansivas e agressivas. Se contarmos que alianças se formam, outras se fragilizam, verificamos os ingredientes que deram origem aos últimos grandes conflitos mundiais.
Mas há outra frente de combate. Uma frente que não tem soldados, pelo menos para já. É aquela que se desenvolveu nas nossas sociedades ocidentais ao longo das últimas décadas e que agora se revela à nossa frente: falta de identidade.
O que é isto de “identidade”? Permitam-me um exemplo. Pensem na reconquista cristã. Lembrem-se que os invasores que vieram do norte de África encontraram uma sociedade incapaz de se defender, onde as elites fugiram, alguns populares com eles, outros ficaram para trás, para serem massacrados ou absorvidos à força, ao qual tiveram que se sujeitar. Conquistaram a península Ibérica facilmente em poucos anos, num tempo onde as vias de comunicação eram difíceis. Imaginem agora o que levou uma pequena sociedade refugiada nas montanhas das Astúrias, consistindo de agricultores, pastores e caçadores, deixarem o conforto das suas casas, famílias e comunidades, partindo para retomarem aquilo que lhes havia sido tomado. Que terá alimentado a vontade e energia daquelas gentes? Eles poderiam muito bem ter-se mantido “confortavelmente” e eventualmente serem absorvidos com o tempo. Mas não. E o que os motivou foi algo mais profundo do que a religião, que teve um papel importante. Foi uma identidade.
A identidade de uma sociedade vai além da religião: reúne princípios que orientam o modo de vida coletiva e individual, criando uma aspiração e visão para o qual todos os indivíduos se sentem atraídos. Cria uma união. Exatamente aqui a sociedade ocidental falhou.
A Liberdade que orientou a construção das democracias ocidentais permitiu extravagâncias, abusos, desmoralização e ataques à própria construção da sociedade – desordem.
Não há liberdade sem ordem; não há sociedade livre que se mantenha sem identidade. Um exemplo simples: as nossas sociedades permitem discussões e manifestações que promovem a desordem, a destruição de infraestrutura e mesmo a divisão de países e regiões. Ideologias que se desmoronaram em ruínas sobre o peso dos seus próprios erros são ainda hoje propagandeadas. A Educação centrou-se na tecnicidade e não no individuo. Resultado: os cidadãos não se sentem ligados à sociedade onde vivem.
E nem se trata de minorias étnicas, ou mesmo imigrantes.
Os próprios nativos se desinteressam da sua própria sociedade, satisfazendo-se com os ataques à sua própria comunidade contentes que estão em destruí-la. Não vemos isso em certas sociedades, como no islamismo, na China, na Coreia do Norte ou Rússia porque as sociedades estão amordaçadas pela religião, pela ideologia, pela cleptocracia e autoritarismo ou pela combinação de várias destas.
O orgulho tomou conta da sociedade ocidental que se julgou superior e protegida em relação ao resto do mundo, do qual se afastou e deixou de compreender, vendo o resto do mundo de uma forma utilitarista através do acesso a recursos e mercados. Estamos agora no mundo transacional. Para ter paz, vende-se aliados ou entregamo-los a bandidos. Para termos lucros, exploramos todo e qualquer monopólio que proporcione uma renda. No ambiente exportamos a poluição das nossas vidas para outros países criando dependências com regimes duvidosos.
As imigrações, oscila-se entre as portas abertas indiscriminadamente ou são travadas criando campos de refugiados em países que são pagos a peso de ouro, beneficiando a continuidade de grupos criminosos de migração. Nas ruas, protestos organizados para a desordem e vandalismo – pois os verdadeiros sofredores da sociedade não estão lá – dão largas às suas ideias destrutivas. Fala-se em divisão de países, em anexações e proferem-se ofensas tão abusadas e pueris quanto desnecessárias. A imoralidade, ou amoralidade, é aclamada como a nova ideologia ocidental à falta de qualquer princípio para além do lucro pessoal e do sossego do conforto material e do gozo de uma vida desafogada. O título deste artigo tem uma frase do tratado militar acima referido. O conforto material de que temos usufruído associado à dominância que havia e que já não existe mais, criou a ilusão de que nada afetaria o mundinho que havíamos criado. Perdemos as lições da História, onde grandes impérios e sociedades prósperas caíram e nunca mais se levantaram por razões mais ou menos idênticas. A renovação é importante. Mas também importante é a direção que se empreende. Renovar para retroceder não é renovar. Renovar para progredir é a solução. Nada mais destruidor, e atualmente mais barato, do que corroer a mente e o espírito das pessoas e esperar sentado que estas destruam as sociedades por dentro.
Esta discussão deveria estar no topo da agenda. E os cidadãos deveriam estar alertados para ela.