Para variar falemos das presidenciais portuguesas. À partida dois factos importantes: o número elevado de candidatos, que é positivo; a falta de qualidade ou desadequação das suas propostas para o cargo a que se candidatam.
Vou deixar de lado propostas inenarráveis de colocar vinho canalizado na casa dos portugueses. Ou discursos ao qual apelido de “discursos de misse” sobre vagas promessas de trazer a felicidade, o amor, a saúde e riqueza a todos os portugueses como se uma sociedade não fosse um edifício em constante reconstrução para enfrentar os desafios de uma realidade sempre em mudança.
E reconstrução é uma palavra difícil para a sociedade portuguesa pela sua reveladora incapacidade de alinhar com os desafios que a realidade lhe apresenta e adaptar-se para os ultrapassar e ressurgir mais evoluída. Muitos pensam ser isto uma crítica severa.
Eu prefiro pensar que é um alerta que se torna cada vez mais urgente no mundo cada vez mais perigoso em que vivemos.
A estes costumo perguntar: já viram a zona marítima que está sobre a alçada portuguesa?
E se uma potência estrangeira decidir invadir os Açores, ou a Madeira, teremos nós capacidade de resposta?
E se a União Europeia se desagregar?
E se a Espanha adotar uma atitude agressiva contra Portugal?
Na realidade Portugal porta-se como o agricultor desavisado que mantém as galinhas a passearem no terreno sabendo que a raposa anda por perto. Excetuando um candidato, que ainda ensaiou inserir alguns temas de ordem mundial, todos os outros candidatos passam o tempo a seguir as bolhas da espuma dos dias, esquecendo as vagas desafiadoras que se aproximam. Esta miopia autoinduzida, porque sendo Portugal um país aberto com vasta diáspora e participando em múltiplas organizações internacionais, não tem razão para negar ver o que se passa ao seu redor, é aterradora face ao porvir.
A postura de alguns candidatos em que hesitam ou mesmo negariam abertamente certos governos com determinados agentes políticos, mesmo cumprindo todos os ditames da constituição, é grave e de consequências imprevisíveis.
Incautos, não se apercebem que atiram as sementes da desordem que pode desembocar num conflito interno grave virando população contra população. Inábeis e ideologicamente poluídos, não percebem que o papel de presidente da república está relativamente bem definido na constituição portuguesa, afastando-o de uma posição executiva, mas não o definindo como um posto de oposição ao governo.
Terá assim que colaborar com o executivo que for eleito, seja ou não do seu agrado, seja ou não alinhado com a sua visão.
A presidência da república não se pode tornar em mais uma ferramenta de oposição como tantas outras como por exemplo os sindicatos, que mais parecem extensões de movimentos e partidos ideológicos, perdendo a essência de sindicato.
Portugal enfrenta desafios sérios que se irão intensificar nos próximos anos.
E a proliferação de candidatos encerrados na bolha portuguesa mostra que a população também se encontra encerrada nessa bolha, qual esquizofrenia nacional difícil de romper. Imaginem um povo, encerrado sobre si mesmo, com localização geográfica privilegiada mas sujeita a desafios nem sempre amigáveis. Imaginem agora uma constante oposição, que nada mais faz do que se opor e atirar pedras no caminho, esquecendo colaboração pelo menos face aos desafios externos.
Este é o reflexo do que a sociedade é capaz.
Mas é preciso mais.
Muito mais.
A Presidência: um povo face ao espelho
