A VELA, O FUMO E OS PAVIOS

As mesas, na sala de reunião, estavam dispostas em quadrado e no centro havia uma enorme vela que se acendeu, após a oração inicial, para significar o que devia significar.
Estava bonito.
O tamanho dos símbolos era proporcional ao espaço e era bem visível o que se pretendia que se visse: a Chama. Só que, daquela enorme chama, também saía um enorme fumo. E o desconforto do fumo passou a impor-se à beleza da chama e já todos estavam incomodados com o ar irrespirável. Até que alguém sugeriu: é melhor apagar a vela. E, por causa do fumo, abdicou-se da luz.
“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Todos somos convidados a ser, nas variadíssimas circunstâncias da vida, alguma luz para os outros. Velas apagadas, que dormem em tabuleiros ou gavetas, não servem para nada.
É verdade que não há chama sem fumo. E, como não há vidas perfeitas, a luz que de nós poderá emanar sempre produzirá algum fumo. Mas há pavios e pavios. E alguns, pelas irritações que trazem, pelas dores de cabeça que dão e pelas lágrimas que provocam, até parece que foram feitos do pelo do rabo de algum diabo. Acabam por ser soprados com a mesma deceção que umas velas de aniversário sem parabéns.
Acredito que é sempre com generosidade que se coloca a chispa, que se traz dentro ao serviço de uma luz maior. Mas, atenção à fonte da chama. O problema da vistosa vela da nossa reunião era o pavio tóxico que se alojava nas entranhas.
“Porque do coração é que procedem os maus intentos, homicídios, adultérios, imoralidades, roubos, falsos testemunhos, calúnias, blasfémias (Mt. 15,19). Todas estas toxinas procedem do pavio, que nos tece a alma. “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29), disse Jesus.
Só dos pavios feitos desta fibra é que poderá sair alguma luz que verdadeiramente alumie, por nela se ver a outra LUZ.

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