Desde a mais tenra idade que o espaço e a sua exploração me fascina. Sem surpresa, foi com grande entusiasmo que acompanhei a missão de Artemis II, acrescido do hiato de cinco décadas que foi qualquer aproximação à Lua do género.
À semelhança dos Descobrimentos, a iniciativa de ir mais além alimentados pela curiosidade científica – outros tempos terá sido a fé também – mas em comum a vontade de fazer progredir a presença humana e alargar os seus horizontes são propósitos que nos deveriam fazer orgulhosos, mas acima de tudo, fazer parte do nosso pensamento e ação, pois sem estes exemplos não estaríamos onde estamos. Mas perguntarão: qual a relação entre a exploração espacial, o Irão e a Hungria? São três acontecimentos em simultâneo no tempo mas afastados na sua essência criando um desafio às sociedades.
Como conciliar aqueles que querem ir mais além, com o equilíbrio societário, sem esmagar a parte menos favorecida da sociedade? Como conciliar aqueles que apenas aspiram a uma vida simples de manter o corpo físico e sua atividade de subsistência de forma digna com aqueles que aspiram a desenvolver a sua atividade e expandir o seu alcance?
Da mesma forma que não é correto submeter uma sociedade às forças oligárquicas que daí nascem, fruto essencialmente da inferioridade moral e ética dos seus agentes, também não é correto bloquear as iniciativas alheias sob pena de atraso generalizado.
A exploração espacial é assim a nova fronteira que se nos torna acessível e que deveria reunir os esforços de todos – sem exceção ou exclusão de origem – para desenvolvimento geral equilibrado. Ao invés vemos a miopia de lideranças oportunistas que tolhidas pela doença da ambição e do poder, consomem recursos – humanos e materiais – na perseguição de objetivos retrógrados, anacrónicos, insustentáveis para os padrões de conhecimento e experiência que já possuímos.
O Irão sofre o revés de décadas de provocação ao redor de si, de semear o ódio, encontrando o seu reflexo no atual governo israelita que segue o velhinho “olho por olho, dente por dente”.
A Hungria, vítima de manipulação externa que encontrou eco num líder agora deposto que destorceu todo o caminho democrático que havia sido feito depois da queda do muro de Berlim, retomará o seu caminho de normalização?
Não será fácil. Irão e Hungria vivem dramas diferentes na forma mas muito próximos na essência: a desorientação intelectual-moral face às necessidades do progresso. As novas tecnologias, cada vez mais interligando o mundo e tornando-o pequeno, expôs esse mesmo mundo às doenças latentes pelo alcance alargado dos seus agentes.
De um lado as imposições bizarras de franjas da sociedade que se debatem com problemas pessoais profundos, que merecem o nosso respeito, mas que resvalam para o ridículo; de outro lado a brutalidade de personalidades também bizarras, carregadas de erros de interpretação e com ideias obsoletas mas autênticos megafones que arrebatam multidões também desorientadas como o tornado que levanta as águas do seu leito!
Enquanto isso, o desgaste de energia humana e de recursos no digladiar infrutífero de forças impede-nos de alcançar metas mais positivas, mais altas e de maior felicidade. Até quando reinará esta desorientação?
Artemis II, o Irão e a Hungria
