Cultura: investimento ou despesa?


Quando os discursos políticos proclamam a importância da cultura para o desenvolvimento das sociedades, os factos, por seu lado, revelam uma paisagem distinta, onde as palavras brilham na retórica, mas raramente encontram eco na realidade. Nos Açores, arquipélago erguido sobre a memória dos séculos, cuja identidade se tece de história, língua e cultura, persiste uma inquietante dificuldade em compreender que a cultura não é um adorno das comunidades, mas um dos seus alicerces mais sólidos.
Esta visão redutora, que insiste em olhar a cultura como despesa e não como investimento, produz consequências profundas. Sobretudo em comunidades onde a criação artística e a participação cultural representam muito mais do que entretenimento, pois são instrumentos de inclusão, caminhos de cidadania e sementes de desenvolvimento humano.
A Escola de Música de Rabo de Peixe constitui um exemplo dessa verdade. Ao longo de vinte e cinco anos, tornou-se muito mais do que uma instituição de ensino artístico. Foi casa de sonhos, oficina de talentos e porto seguro para sucessivas gerações de crianças e jovens. Numa terra tantas vezes retratada pelas suas dificuldades sociais e económicas, a escola soube mostrar que a arte pode abrir janelas onde antes existiam apenas muros.
Pela música, pelo teatro e por outras formas de expressão artística, muitos jovens descobrem não apenas competências, mas também confiança, disciplina e pertença. Aprendem a ouvir e a ser ouvidos. Aprendem que uma pauta musical pode ser tão transformadora quanto uma oportunidade de vida. Entre acordes e silêncios, encontram um lugar onde a liberdade ganha forma e onde o futuro parece um pouco mais amplo do que o horizonte visível.
Por isso, causa legítima perplexidade que uma instituição com provas dadas ao longo de um quarto de século veja o seu trabalho diminuído pela ausência de apoios públicos adequados. A não atribuição de financiamento através de programas destinados ao setor cultural levanta inevitáveis interrogações sobre os critérios que orientam as decisões políticas. Porque quando se retira apoio a projetos que transformam vidas, não se poupam apenas recursos, corre-se o risco de desperdiçar destinos.
Esta reflexão adquire renovada atualidade perante as dificuldades enfrentadas pelo projeto Ponta Delgada 26 – Capital Portuguesa da Cultura. O chumbo do aditamento ao Contrato-Programa Sectorial Plurianual, por parte da oposição na Câmara Municipal de Ponta Delgada, constitui um obstáculo à concretização de uma iniciativa que poderia projetar os Açores no panorama cultural nacional. As divergências políticas são naturais em democracia, mas a cultura não deveria tornar-se refém dos ventos passageiros da conjuntura. O interesse coletivo exige visão, coragem e sentido de responsabilidade. Tantos “tiros nos pés” se têm dado…
Importa recordar que a relevância deste projeto não se circunscreve aos limites geográficos de Ponta Delgada. O seu alcance estende-se à ilha e à Região, com alguns erros é certo, mas fortalecendo a coesão social, prevenindo a exclusão e valorizando o capital humano. A cultura é, por natureza, um território sem fronteiras. É um espaço de liberdade pessoal onde cada indivíduo pode descobrir novas possibilidades para si e para a comunidade que integra. Não é um privilégio reservado a alguns, é uma ponte de oportunidades que deve estar acessível a todos.
Os Açores necessitam de afirmar a sua singularidade num mundo cada vez mais homogéneo. Essa afirmação não se constrói apenas com estradas, edifícios ou estatísticas económicas. Constrói-se também com memória, criatividade, património e capacidade de gerar cultura viva e contemporânea. Investir na cultura é investir na identidade que nos distingue, na educação que nos engrandece e na inovação que nos projeta para o futuro.
Mais do que um setor de atividade, a cultura é uma luz que permanece acesa quando tantas outras se apagam. É a voz coletiva de um povo, o espelho da sua memória e a matéria-prima dos seus sonhos. Ignorá-la é empobrecer o futuro. Apoiá-la é reconhecer que o verdadeiro progresso de uma comunidade se mede, também, pela capacidade de sonhar, de criar e de transformar esses sonhos em realidade.