Memórias de adolescência


Fui educado numa família católica e, aos domingos, ia à missa. Enquanto durava o ofício, ficava de pé, junto à porta, e ali orava, de cabeça baixa e olhos fechados. Ajoelhar achava que era coisa para as senhoras. Era religioso à minha maneira. Preferia entrar na igreja mais a miúdo, quando não estava lá ninguém. Sentava-me a meditar, a olhar para o altar e para as imagens nos seus nichos.
Pensava na glória da Igreja, nos seus santos, nos seus mártires, nos seus milagres e mistérios. Admirava imenso o meu santo padroeiro, São Jorge, com a sua lança a matar o dragão. A figura de Jesus Cristo fascinava-me pelo que tinha de humano: o Filho do Homem que oferecia a face esquerda quando lhe batiam na direita. Esse acto, para mim, tinha um valor extraordinário.
Nas horas de silêncio, na igreja vazia, fazia as minhas orações, embora me cansasse de tudo aquilo com facilidade. Para mim, não havia dúvida de que Deus existia: o universo, sem Deus, não tinha explicação nem sentido. Havia uma razão divina acima de nós; não admitia fenómeno sem causa. Deus devia ser o princípio e o fim de todas as coisas.

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