O trabalho jornalístico de Herberto Gomes sobre João Bosco Soares Mota Amaral na RTP Açores, merece uma menção muito positiva, não apenas por se tratar de uma das figuras mais ilustres da história política recente de Portugal, e, em particular, da epopeia insular açoriana, mas porque a reportagem conseguiu, com lucidez, mostrar a vida de quem ajudou a construir com inteligência, firmeza e rara serenidade os Açores de hoje.
Formado em Direito pela Universidade de Lisboa, Mota Amaral cedo revelou vocação para o serviço público. Nos anos 60, tempos sombrios e disciplinados da Primavera Marcelista, foi deputado independente eleito nas listas da Ação Nacional Popular, representando Ponta Delgada na Assembleia Nacional.
Mas, mesmo cercado pelas muralhas do regime, Mota Amaral soube abrir frestas, introduzindo no debate político uma brisa de renovação e humanidade. Ao lado de Francisco Sá Carneiro, colaborou em 1970 na elaboração de um projeto de revisão constitucional que já pressentia a alvorada democrática.
Com o 25 de Abril, o seu destino confundiu-se com o renascimento das ilhas. Eleito deputado à Assembleia Constituinte, em 1975, tornou-se uma das vozes mais determinantes na definição da autonomia política e administrativa dos Açores e da Madeira.
Foi artífice dos preceitos constitucionais que consagram a autonomia e tornou-se o primeiro Presidente do Governo Regional dos Açores a 8 de setembro de 1976. Inaugurava-se, assim, um ciclo histórico, num dia curioso pela sua coincidência, em que o poder insular deixou de ser um eco distante de Lisboa para se tornar voz plena, confiante e livre.
Durante quase duas décadas, até outubro de 1995, Mota Amaral conduziu os Açores com mão firme e visão de estadista. Mais do que governar, construiu uma ideia e uma consciência. Fundou uma cultura política de diálogo e responsabilidade, conciliando o apego à terra com a integração europeia. Sob a sua liderança, os Açores deixaram de ser periferia para assumirem o estatuto de Região Autónoma com projeto, dignidade e ambição.
Da agricultura à educação, da modernização portuária à cultura, foi tecendo o tecido social e económico que sustentaria o desenvolvimento insular contemporâneo.
Distinguido com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e, mais tarde, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, o reconhecimento oficial não fez sombra à simplicidade pessoal que sempre o caracterizou.
Em 1995, regressou à Assembleia da República, onde voltaria a deixar marca profunda. Presidiu ao Parlamento, dignificando a Casa da Democracia com a mesma cortesia e elevação que levara aos Açores. Relator da revisão do Estatuto Político-Administrativo e participante ativo na IV Revisão Constitucional, defendeu um Estado moderno e solidário, que respeitasse as diversidades regionais sem romper a unidade nacional.
Jurista, político de princípios e homem de cultura, Mota Amaral é exemplo raro de permanência ética na vida pública. A sua biografia confunde-se com a história da autonomia, mas vai além dela, pois é o retrato de um cidadão que soube servir sem se servir, e cuja serenidade firme moldou a democracia insular. Doutor Honoris Causa pela Universidade dos Açores, a sua obra é também moral, num testemunho de que a política pode ser espaço de dignidade, de visão e de serviço.
A RTP Açores, pela voz de Herberto Gomes, chamou-lhe “Pai da Autonomia”. A expressão tem justeza e ternura. Porque foi ele quem primeiro lhe deu voz, quem lhe traçou o rosto jurídico, e quem lhe ensinou o passo democrático.
Assim, entre a terra e o mar, entre Lisboa e Ponta Delgada, entre o passado e o amanhã, Mota Amaral permanece símbolo e farol.
Apesar de ter sido afastado pelo seu próprio Partido a nível nacional, que não o perdoou por ter votado contra a orientação do seu grupo parlamentar a lei das finanças regionais, a sua vida continua a ser uma travessia, fiel à ilha e aberta ao mundo, como todas as grandes histórias escritas à beira do Atlântico.
Mota Amaral “o pai da Autonomia”
