Ponta Delgada, Capital Portuguesa da Cultura


Há datas que funcionam como marés: aproximam-se devagar, quase sem ruído, e quando damos por elas já alteraram a linha da costa. 2026 será uma dessas datas para os Açores. Ponta Delgada, elevada a Capital Portuguesa da Cultura, carrega nos ombros uma promessa e uma expectativa renovada, a de fazer da cultura não apenas celebração, mas espelho e motor de transformação.
Portugal conhece bem este exercício, seja com a experiência com as suas capitais portuguesas da cultura em Braga e Aveiro, seja com as capitais europeias como as que tiveram lugar em Lisboa, Porto ou Guimarães, que apesar das críticas sobre a excessiva concentração e a efemeridade de alguns investimentos, usaram a cultura como ferramenta de coesão, valorização do património, criação artística contemporânea e participação comunitária.
Ponta Delgada observa estes precedentes a partir do meio do Atlântico, com vantagens e fragilidades próprias. Não é uma metrópole nem uma cidade-museu. É porto, é mercado, é lugar de passagem e de permanência, moldada por séculos de emigração, sismos, ciclos económicos e silêncios impostos pela distância. A cultura açoriana, antigamente reduzida a folclore ou a postal turístico, encontra aqui uma oportunidade rara de se afirmar na sua complexidade.
O primeiro efeito esperado é simbólico, pois ser Capital Portuguesa da Cultura obriga o país a olhar para os Açores não como periferia, mas como centro legítimo de criação, pensamento e memória.
Este deslocamento do olhar é fundamental, dado que a cultura açoriana não é apenas tradição preservada; é literatura, música, artes visuais, teatro, investigação histórica, práticas comunitárias e uma relação singular com a natureza e o sagrado.
Mas o símbolo só ganha corpo se houver efeito estrutural. A experiência das anteriores capitais culturais mostra que o maior risco está na programação avulsa, no evento que passa e não deixa rasto. Em Ponta Delgada, o desafio será criar condições duradouras: espaços de criação acessíveis, redes entre artistas locais, valorização dos criadores açorianos que muitas vezes só são reconhecidos fora das ilhas. A cultura deve deixar de ser exceção para se tornar prática contínua.
Há também um impacto social a considerar. A cultura pode e deve chegar às freguesias, vilas e cidades, muitas vezes raramente se veem representadas nos palcos institucionais. Se Guimarães ensinou algo, foi que a participação ativa da população transforma e não apenas se assiste a um espetáculo para consumo externo. Nos Açores, onde a memória oral, as festas do Espírito Santo, a música popular e as narrativas de trabalho e emigração continuam vivas, esta integração é crucial.
Por fim, há a questão identitária. 2026 pode ajudar os açorianos a reconhecerem-se a si próprios com menos complexos e menos filtros.
A insularidade, tantas vezes vista como limitação, pode afirmar-se como lugar de síntese cultural, onde Europa, África e Américas sempre se cruzaram. Ponta Delgada, cidade de partida e de regresso, pode tornar-se palco dessa narrativa atlântica.
Ponta Delgada- Capital Portuguesa da Cultura deve ser afirmação identitária e justiça cultural. Uma capital que não disfarce a sua condição periférica, mas a transforme em discurso crítico e criativo. Uma capital que não tente parecer outra coisa, mas que assuma a sua voz atlântica e plural.
Ponta Delgada pode diferenciar-se verdadeiramente das outras capitais portuguesas da cultura, não competindo com o continente, mas oferecendo ao país uma outra forma de pensar cultura, território e pertença e afirmando-se como cidade do futuro, moderna e funcional, usando a cultura como vetor de competitividade e visibilidade nacional. Ponta Delgada não pode correr o risco de menos atenção às camadas mais tradicionais da identidade local, espraiando-se em dinâmicas que se diluem em discursos muito urbanos sem uma verdadeira ligação às zonas periféricas da ilha.
Como todas as marés, 2026 passará.
O que ficará dependerá da coragem política, da escuta das comunidades e da capacidade de entender que cultura não é ornamento: é fundação. Se assim for, a Capital Portuguesa da Cultura não será apenas um título, mas um ponto de viragem, na forma como os Açores se pensam e são pensados.

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