Olá, Andorinhas,
Temos o prazer de receber Suzy Silva, uma fadista que honra a tradição do fado com uma interpretação intensa e autêntica. Dona de uma voz cheia de alma e presença, Suzy Silva traz-nos o fado vivido — aquele que se canta de coração aberto e se sente até no silêncio. É com grande alegria que a convidamos a partilhar connosco a sua voz e a sua história.
A Voz de Portugal: O fado está profundamente ligado à identidade portuguesa. Como começou o seu percurso pessoal no fado? O que significa saudade para si hoje, vivendo longe de Portugal?
S.S.: Os meus pais emigraram para o Canadá nos anos 90, quando eu tinha seis anos. Em casa, falava-se português e ouvia-se música portuguesa. O fado surgiu naturalmente na minha vida, pois era a música que conhecia e na qual conseguia expressar-me. No entanto, desde a adolescência, também explorei outros géneros musicais, ampliando o meu universo musical.
Hoje, vivendo longe de Portugal, a saudade é um estado de espírito que sinto com intensidade, mas que consigo transformar em algo positivo. As tecnologias modernas permitem-me manter uma ligação constante com a família e os amigos, tornando a distância menos dolorosa. A saudade continua a ser um aperto no coração, mas também é uma âncora que me liga às minhas raízes. Para mim, essa ligação transforma-se em música e em fado, reforçando a minha identidade portuguesa mesmo longe de casa.
A.V.P.: De que forma viver em Montreal influenciou a sua voz, a sua interpretação ou o seu repertório? Acha que Montreal oferece um espaço onde o fado pode evoluir sem perder a sua autenticidade? Qual a importância da comunidade portuguesa em Montreal para o seu percurso artístico?
S.S.: Viver em Montréal teve um papel determinante na minha trajetória musical. Quando regressei em 2013 para estudar música, a cidade e o ambiente artístico influenciaram diretamente a minha voz e a minha interpretação: o contacto constante com músicos de diferentes estilos, especialmente no jazz, ajudou-me a explorar novas cores vocais, nuances de fraseado e uma abordagem mais flexível ao repertório. A experiência académica e o convívio com músicos locais permitiram-me integrar técnicas e sensibilidade jazzística ao fado, sem perder a sua essência.
Montreal é uma cidade que valoriza as artes e a diversidade cultural, o que cria espaço para o fado (ou qualquer outro estilo de expressao musical) evoluir. O meu projeto Fad’AZZ, uma fusão entre fado e jazz, é exemplo disso: é possível experimentar e inovar mantendo a esssencia do fado.
A autenticidade de uma obra artística, por si só, não é garantia de qualidade ou relevância. O que realmente importa é sermos autênticos connosco mesmos, ou seja, expressarmos genuinamente a nossa visão, emoção e experiência. Repetir padrões estabelecidos apenas por serem considerados “autênticos” ou tradicionais não acrescenta novidade ou profundidade à obra.
A verdadeira força de uma criação artística surge quando o artista aprecia, interpreta e questiona criticamente os elementos que utiliza. A repetição mecânica de fórmulas ou convenções sem reflexão pessoal transforma a obra em algo previsível e vazio, enquanto a integração consciente de referências com a própria visão produz algo único e significativo.
Em outras palavras, a autenticidade deve nascer de dentro, da conexão sincera do artista com a sua própria expressão, e não da simples adesão a regras ou estilos pré-estabelecidos. É essa reflexão e apropriação pessoal que tornam a obra viva, relevante e original.
A comunidade portuguesa em Montréal tem um papel fundamental no meu percurso. Ela funciona como um ponto de referência, oferecendo apoio e reconhecimento, e mantém viva a ligação às raízes portuguesas. Estar inserida nesta comunidade permite-me crescer artisticamente e culturalmente, enquanto continuo a desenvolver uma voz própria no fado e no jazz.
A.V.P.: O fado é muitas vezes descrito como uma música de destino e de saudade. Que emoções a guiam quando canta? Haverá algum fado em particular que ressoe mais profundamente com a sua própria história de vida?
O fado é, acima de tudo, um modo de expressão, com uma linguagem musical que lhe é própria. O destino e a saudade são temas recorrentes, mas não os vejo como conceitos fatalistas. Há muitas outras emoções que habitam o fado, e tudo depende também da interpretação de quem o ouve e da forma como cada um relaciona as letras com a sua própria experiência. O fado tem, de facto, uma carga emocional forte, mas pode ser igualmente um lugar de profunda alegria.
Quanto a um fado em particular, não consigo apontar apenas um que represente a minha história de vida. Há vários que ressoam comigo em momentos diferentes, consoante a fase que estou a viver, o que reforça precisamente essa capacidade do fado de se adaptar à experiência individual de cada intérprete e de cada ouvinte.
A.V.P.: Como encontra o equilíbrio entre respeitar o fado tradicional e incorporar influências contemporâneas? Acha que o fado deve manter-se inalterado ou a sua transformação é necessária para a sua sobrevivência?
S.S.: Acho que o meu percurso é bastante claro em relação a estas questões. O projeto Fad’AZZ faz a ponte entre o fado e o jazz, mostrando que é possível uma fusão e uma modernização quando existem estudo, respeito e empenho. Não considero que isso seja desrespeitoso; pelo contrário, vejo-o como um dos caminhos para manter o fado estimulante, aliciante e vivo.
Ao mesmo tempo, faço regularmente concertos de fado tradicional. Gosto dessa liberdade de me poder exprimir tanto através de um fado mais tradicional como de propostas mais arrojadas. Há espaço e interesse para ambos os caminhos. A mudança é inevitável e faz parte da natureza de muitos aspetos da nossa vida e da nossa sociedade — por que razão, então, castrar a criatividade?
A.V.P.: Parte do seu público não entende português. Como transmite emoção para além das palavras? Já notou diferenças na forma como o fado é recebido pelo público português e pelo público não português?
S.S.: O público francófono e anglófono tem uma excelente receção ao fado, quer na sua versão tradicional quer em fusão. É um público respeitador, curioso e interessado. Para quem não conhece o fado, trata-se de uma descoberta; para quem já o conhece, é um reencontro com um velho amigo. A língua não é uma barreira: a música fala por si. Tal como alguém que nunca estudou música se pode comover com uma peça instrumental, o facto de o fado ser cantado em português não é, geralmente, um obstáculo.
Ainda assim, tenho essa preocupação e, por isso, nos meus concertos procuro estabelecer um discurso que guie o público através dos temas e das histórias das canções. Incluo também, por norma, uma ou duas canções em francês ou em inglês, algo que é muito apreciado.
Quanto às diferenças, noto que o público português tem uma ligação mais imediata às letras e à tradição, enquanto o público não português reage sobretudo à emoção, à intensidade e à interpretação. Em ambos os casos, a receção é muito forte, apenas ancorada em pontos distintos.
A.V.P.: Quais são os desafios que se colocam a um fadista fora de Portugal, particularmente na América do Norte? Acha que o fado recebe o reconhecimento que merece no panorama cultural canadiano?
S.S.: Não respondo apenas como fadista, mas como artista independente a viver na América do Norte. Muitos dos desafios são comuns a todos os artistas: a dificuldade em aceder a um sistema cultural muitas vezes controlado por uma minoria, onde o talento nem sempre é o principal critério de sucesso. Existe imenso valor artístico na nossa comunidade, muitas vezes superior ao que é visível nos grandes meios de comunicação, mas trata-se de um jogo que, em grande parte, está viciado à partida.
No que diz respeito ao fado, acredito que no Canadá ele ainda é um género de nicho e não recebe o reconhecimento que merece no panorama cultural dominante. No entanto, noto um respeito e uma curiosidade genuínos por parte do público, sobretudo fora da comunidade portuguesa, o que mostra que há espaço para o fado crescer e afirmar-se.
Perante estas realidades, tento viver em paz com o sistema e fazer música, acima de tudo, pelo prazer e pela necessidade de me exprimir. É também esse o conselho que dou: fazer música porque se gosta, e não apenas com o objetivo de fazer carreira. Os paradigmas mudam rapidamente e, com o acesso à informação e às redes sociais, todos podem criar e divulgar arte. O sucesso visível nem sempre define o valor artístico — é apenas mais um reflexo de um mundo em constante transformação.
A.V.P.: Como Fadista e Mulheres no Fado (a adaptar conforme apropriado) O fado tem figuras icónicas como Amália Rodrigues. Como é que os fadistas do passado o influenciaram? Acha que a sua voz traz algo de novo a esta tradição?
S.S.: Certamente. Aprender com as vozes do passado — e do presente também — faz parte da arte em geral. No jazz e no blues, esse processo é conhecido como “paying your dues”. É inevitável sermos influenciados pelos nossos ídolos. Figuras como Amália Rodrigues, Fernanda Maria, Teresa Tarouca, Hermínia Silva, Lucília do Carmo, entre tantas outras, marcaram profundamente o meu percurso.
Não sei se a minha voz traz algo de totalmente novo, mas acredito — e espero — que a minha abordagem possa deixar frutos e abrir caminhos para quem deseja descobrir ou redescobrir o fado.
A.V.P.: Qual a importância do silêncio numa apresentação de fado? Como se prepara emocionalmente antes de subir ao palco?
S.S.: O silêncio é essencial. Um concerto de fado não é a mesma coisa que ir tocar blues num bar. O silêncio está, em primeiro lugar, ligado à origem do fado: era tocado e cantado de forma acústica, em pequenos espaços. Depois, há a questão do significado dos poemas. Para os compreender plenamente, é necessário escutar com atenção. E, por fim, algo fundamental em qualquer contexto cultural: o respeito pelos artistas.
Quanto à segunda parte da pergunta, confesso que já não penso muito nisso. Gosto, como toda a gente, de me recolher antes de subir ao palco e fazer os meus aquecimentos vocais e físicos. Em relação à preparação emocional, não sei bem como a definir. Acho que, depois de mais de 30 anos a cantar e de ter estudado técnica vocal, aprendi a controlar o stress do palco. Sinto-me, curiosamente, mais ansiosa nas situações do dia a dia do que em palco. Sou uma pessoa relativamente tímida e reservada. É a cantar que me permito dar por inteiro e ser verdadeiramente autêntica na expressão dos meus sentimentos. Talvez por isso ame o fado — e a música em geral — mais do que qualquer outra forma de expressão.
A.V.P.: O que gostaria que o público de Montreal se lembrasse depois de a ouvir cantar? Quais são as suas esperanças para o futuro do fado na diáspora portuguesa?
S.S.: O meu projeto de fusão é talvez o maior legado que consigo entrever. Fad’AZZ já foi apresentado no Canadá e ganhou prémios internacionais. Se este for o meu único legado, ficarei feliz. Mas se, para além disso, as pessoas se lembrarem de mim pela minha voz ou pela forma como me apresento, ficarei ainda mais satisfeita e poderei dizer que realizei o meu sonho de ser cantora/compositora.
Quanto ao futuro do fado na diáspora portuguesa, não me preocupo em relação às vozes. Só em Montréal há tanto talento que tenho a certeza de que o fado continuará a ser cantado e tocado por muitos anos. A Gabriela Almeida Pereira, por exemplo, é maravilhosa, e espero que alcance todo o sucesso que merece. É muito reconfortante ver o interesse que as camadas mais jovens têm pelo fado, tanto no estrangeiro como em Portugal.
A minha maior preocupação recai sobre os guitarristas. Devemos muito a músicos como Luís Duarte, António Moniz, Nelson Moreira e Liberto Medeiros, e recentement José Brites, mas noto menos interesse entre os jovens em aprender guitarra portuguesa. É algo que espero que se vá fortalecendo, para garantir que esta parte fundamental da tradição do fado também continue viva na diáspora.
Não nos podemos esquecer que, sem os guitarristas, não há fado. A guitarra portuguesa é um instrumento essencial! Acho que nem sempre se dá o devido valor e atençao aos guitarristas, algo que é fundamental para que esta tradição continue a crescer e a inspirar as novas gerações.
A.V.P.: Pergunta Pessoal Se o fado fosse um animal/ lugar ( a você de escolher a sua preferência), qual seria para si?
S.S.: Se o fado fosse um animal, seria um gato: às vezes temperamental e distante, mas quando se entrega, torna-se o teu mais fiel amigo, oferecendo calor e conforto. E talvez a guitarra portuguesa seja o seu ronronar, um som que envolve, acolhe e acalenta, como um abraço silencioso que acompanha cada nota.
A.V.P.: O que diria a um jovem em Montreal que está a descobrir o fado pela primeira vez?
S.S.: Segue o teu coração.
Canta, toca, ouve, sente, explora, analisa, ama, chora, deixa-te maravilhar ou desiludir — faz tudo por ti e para ti, porque esta viagem é, antes de mais, tua.
O fado nasce do que sentimos, e é assim que ele toca quem nos ouve.
Esta regra não vale apenas para a música, mas para todos os caminhos da nossa vida.
Espero que venham em grande número descobrir Suzy Silva, na Sala O Balcon, no dia 29 de janeiro, para ouvir uma fadista que traz na voz a alma do fado e um profundo respeito pela sua tradição. Recebam com carinho esta artista, que canta o fado como ele deve ser sentido.
