Tem um vizinho na minha rua que tinha um pedaço de terra ao lado da sua casinha. Aqui em Montreal, no Quebec, há casas que nós chamamos de casas “Shoebox”. São minicasas que têm um valor patrimonial e que são pequenas em tamanho, mas agora são renovadas para modernizar o interior de uma maneira que se adapta melhor às nossas vidas em 2026. Mais luz, mais facilidade de espaço para aproveitar um lugar que tem design e um jeito mais bonito.
Um dia, esse vizinho, vestido sempre de gangas azuis, uma camisa branca e um chapéu de marinheiro preto, começou a cavar um buraco nesse pedaço de terra sem nada ao lado da sua casa Shoebox. Eu passava todos os dias no passeio com a minha cadela e, um dia, curiosa como eu sempre sou, perguntei se ele estava a cavar para fazer uma piscina. Ele olhou para mim e disse-me:
— Eu estou a construir uma casa. Não sei se é para a minha namorada e para a sua filha ou talvez para a minha mãe.
OK. Continuei o meu caminho.
Essa conversa já lá vai há dois anos, e a casa desse senhor ainda está a ser construída. Nunca teve uma grande companhia de construção que apareceu para cavar com ele, nem uma equipa de amigos para o ajudar a instalar janelas… e madeira… nada. Um homem magrinho, mas com o conhecimento do que estava a fazer, certo de que estava a construir algo importante, algo poderoso e novo.
E essa ideia leva-me ao momento presente, porque na vida é preciso querer, às vezes, cavar sozinho, num momento de nada, para ir onde eu não sei, mas seguindo um instinto necessário para sobreviver.
Acho incrível que esse homem, sozinho, com um pick-up preto velhinho, esteja a construir um edifício tão impressionante que, cada vez que passo com a minha cadelinha velhinha, eu e outros paramos num momento de silêncio só para ver esse monumento a ser construído.
A ideia de que uma casa é construída através de um buraco que ele estava a cavar todos os dias sozinho, às vezes com o trator e outras vezes com uma pazinha… na chuva, no sol e na humidade do verão, numa ilha que não tem praia salgada como São Miguel, para nos ajudar a esquecer um pouco o imenso trabalho das nossas responsabilidades.
Sozinho, ele e os seus materiais e os seus pensamentos. No inverno, aquele projeto parou, como muita coisa linda aqui em Montreal… no Quebec e no Canadá.
Felizmente, o Montreal de verão, com os festivais e a beleza floral e urbana ao mesmo tempo, é um espetáculo. Mas também é preciso cavar e parar em qualquer momento escuro ou frio demais, invernal, em detrimento da dor e da tristeza que nenhum pedaço de terra pode nos levantar para a frente.
Essa ideia leva-me à poesia do momento presente, onde às vezes sozinhos passamos por dificuldades e juntos também conseguimos construir. Mas, como esse vizinho na minha rua, ele está a construir e a levantar qualquer coisa que só ele sabe. A construir algo impressionante e que não conseguimos imaginar, nem na nossa imaginação mais aventurosa, o que vai ser feito.
Passei uns dias maravilhosos nos Açores em maio e adorei a beleza, a comida deliciosa e a liberdade do momento presente. Mas também saí de lá com o medo da possibilidade de que a vida tem uma fragilidade onde não controlamos nada.
O nevoeiro controlou o momento e quase destruiu a minha realidade e as minhas responsabilidades, porque nenhum avião conseguiu seguir o seu caminho para retornar à rotina. E a vida continuou sem eu estar aqui em Montreal, longe do necessário, daquilo que quase acabou tudo.
Mas aqui estou e quero cavar no momento para recuperar pedaços de coisas quebradas pela saudade que eu deixei na minha ausência. E uma mãe nunca pode ausentar-se dos seus filhos, nem numa ilha que dá a impressão de um paraíso, que se tornou infernal perante a compreensão de que, às vezes, não controlamos nada.
Aqui em Montreal, estou a tentar lembrar-me daqueles momentos onde estive contente e agora é preciso, sozinha, recalibrar a vida familiar. Quero falar sobre os Açores, uma semana incrível, mais precisamente sobre a ilha de São Miguel, onde fiz vários conhecimentos e também sobre a vida de festival aqui em Montreal, que continua a bater forte com alegria urbana, arte de várias formas e amor.
Em São Miguel, sentei-me no Hotel Nine Dots, que honra artistas históricos dos Açores nos seus muros e transformou um estacionamento subterrâneo em spa e piscina. O DJ André Neves falou comigo para me explicar o seu percurso artístico e o apoio dos seus pais, mais precisamente da sua mãe, que sempre encorajou o seu sonho de ser DJ.
Também tenho que falar da comida na ilha, mais precisamente do peixe fresco que comia todos os dias ao lado da maré.
As vagas perigosas, salgadas e altas, cheias de caravelas vivas que se viam, e também as secas na areia, roxas e inchadas. Aqui em Montreal, os tratores de inverno levam a neve para longe; lá, esses mesmos tratores limpam a minha praia preferida do mundo, a Praia de São Roque, dessas caravelas secas e roxas.
Os rapazes jovens a usar paus para levantar essas criaturas perigosas e a lançá-las entre eles de uma maneira má, mas amigável ao mesmo tempo. Uma brincadeira que só um rapaz que vive na ilha de São Miguel pode fazer.
Comi no Bar Sunset Beach, sozinha, lulas grelhadas acompanhadas de um copo de vinho branco. E também comi bolos lêvedos, que só se podem imitar aqui, mas nunca se reproduzem em nenhum lado da mesma maneira.
Também passei um momento muito doente no Hospital Divino do Espírito Santo e paguei 6 euros para ser servida em três horas por uma doutora que só falava espanhol e por duas enfermeiras que me ajudaram a gerir uma faringite, com tantos antibióticos que ainda tenho numa gaveta qualquer, cheia de comprimidos azuis que me ajudam com as minhas alergias à noite.
Aqui, quer dizer! Antes de se poder ser vista por um doutor é preciso passar exames de francês inúteis e passar horas à espera numa sala cheia de outros doentes, podendo apanhar outra doença ainda mais terrível do que aquela que nos levou lá em primeiro lugar, e só se encontrares estacionamento. Lá, em Ponta Delgada, pode-se estacionar de graça. Que ideia!

